ZONA LIVRE


“Trash Humpers” abre a Zona Livre e a série de debates: via Skype, Harmony Korine fala de cinema na tela do CCBB
fevereiro 10, 2010, 5:30 pm
Filed under: Debates da mostra, Filmes em exibição, Zona Livre | Tags: ,

Começou ontem, com o pé direito e online com os Estados Unidos, a versão carioca da Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, nascida em Porto Alegre no CineEsquemaNovo 2009 e que acontece ao longo de todo este mês de fevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil da capital carioca.

Trash Humpers, última produção do aclamado e controverso Harmony Korine, marcou o pontapé inicial da programação. A projeção foi seguida por um debate online via Skype com o próprio Korine, diretamente de sua casa nos EUA, como você pode ver nas fotos deste post:

Como era de se esperar, Trash Humpers não passou ileso junto ao público que compareceu ao CCBB ontem (09) à noite para a sessão de abertura da mostra. Certamente, ninguém ficou apático frente à violência e à poesia do longa-metragem, gravado em Nashville, Tennessee, que mostra os comportamentos grotescos e polêmicos de um grupo de mascarados em atos de vandalismo gratuito. Pode-se dizer que o filme, montado com situações repulsivas, mas, ao mesmo tempo, de inusitadas doçura e poesia, refletiu-se perfeitamente no público, provocando ao mesmo tempo o desconforto e o fascínio por ele.

“Um filme desses sempre é difícil. Claro que tem gente que desiste, mas quem se comunicou com a obra não teve como ficar indiferente. Na realidade, é um filme que não deixa ninguém indiferente: ou você entra no espírito e se deixa levar, ou vai recebê-lo de uma outra forma, talvez não tão agradável. Isso já é bem esperado pela gente, muitos dos filmes da mostra são assim. Trash Humpers, especialmente, é um filme de muita personalidade. Eu sou um entusiasta de Korine, então sou suspeito para falar”, comentou Davi Pretto, curador da mostra ao lado de Bruno Carboni. Juntos, eles fizeram o meio de campo do bate-papo online do cineasta com os espectadores – que, durante aproximadamente 40 minutos, puderam conhecer um pouco mais sobre a vida do diretor.

Harmony Korine entrou via Skype direto de sua casa em Nova York, ao lado do filho e da esposa, com a naturalidade de quem faz e diz o que quer. Um dos pontos ressaltados pelo cineasta foi que seus projetos, acima de tudo, são desenvolvidos com a intenção da própria satisfação. Ele tem uma ideia, quer comunicá-la, vai lá e executa, sem pensar no resultado e se o filme será bem aceito pelo público ou pela crítica. Essa autonomia, explicou ele, não significa que não esteja de portas abertas para projetos maiores, desde que possa estar mais preocupado com o ser, do que em como vai ser.

Korine contou da concepção da história de Trash Humpers, desenvolvida a partir da mistura de uma imagem visual do tempo presente com uma lembrança do passado. Enquanto passeava à noite com seu cachorro em uma viela atrás de sua casa em Nashville, Korine encontrou um monte de latas de lixo reviradas e jogadas no chão. Aquele cenário, que parecia uma zona de guerra, iluminado pelos postes de luz, chamou sua atenção pela dramaticidade. Então lembrou de quando era criança e costumava ver um grupo de velhos sujos perambulando pela rua, bebendo, dançando e urinando pelas janelas das casas alheias, e quis fazer um filme.

Trash Humpers foi realizado com orçamento mínimo, durante cerca de duas semanas. Sua distribuição foi feita de forma independente, aparecendo em diversos festivais de cinema no exterior. Assim como alguns dos outros trabalhos de Korine, o filme conquistou um especial destaque na internet, suscitando um dos objetivos da mostra: proporcionar a reflexão sobre as vias paralelas da informação.

Quanto a este tema, Korine afirmou que “as pessoas devem fazer o que estiver ao seu alcance para ter acesso à informação”. Sendo assim, se alguém quiser exibir seus filmes em uma sala grande, para uma grande plateia, claro que vai ser ótimo: ele prefere que os filmes aconteçam na experiência do cinema. Porém, se este não for o caso, e a única opção for baixar da internet, que seja assim: “o mais importante é que as produções sejam vistas, não interessa de que forma”.

O clima do bate-papo na sala de cinema do CCBB foi de intimidade, com muito bom humor e sarcasmo por parte de Korine – que, entre risadas e piadas, filmava a filha Lefty Bell Korine, e a esposa, Rachel Korine, para a plateia ver. A descontração do momento deu uma boa ideia de como devem ter sido os sets de filmagem de Trash Humpers, cujo elenco foi formado pelo diretor, Rachel e mais alguns amigos. As cenas do longa não foram ensaiadas ou preparadas: o grupo só saiu batendo nas casas de pessoas, entrando e fazendo o que bem entendiam pelas ruas de Nashville, dando à produção uma aura de documentário na contramão do cinema convencional. Conforme Korine, nem se trata exatamente de um filme, mas de um retrato de uma realidade. E da mesma forma foi a estreia da Zona Livre: um retrato “real” de Harmony Korine e de sua personalidade, muito à vontade em satisfazer a própria honestidade.
Andréa Azambuja

Anúncios

1 Comentário so far
Deixe um comentário

[…] um caráter muito particular e livre de qualquer amarras morais.  Abaixo, um trechinho do debate com o relaxado Korine, para ter uma […]

Pingback por VÍDEO DO DEBATE COM HARMONY KORINE « ZONA LIVRE




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: