ZONA LIVRE


MOONLIGHTING, DE JERZY SKOLIMOWSKI
fevereiro 24, 2010, 1:00 am
Filed under: Filmes em exibição, Zona Livre | Tags: , ,

Reino Unido, 97min, 1982, cor, 35mm
(exibição em DVD)

>> inédito no Rio de Janeiro

23/02, às 18h, Sala 01
24/02, às 18h, Sala 02

“Recentemente, o festival de Cannes exibiu o filme 4 Noites com Anna, do diretor polonês Jerzy Skolimowski. O longa encerrava um hiato de 17 anos sem lançar novas obras. O fato curioso despertou o interesse pelo restante de sua obra, e a internet foi a opção mais acertada para encontrar algumas respostas. Abrindo o leque da Zona Livre, Moonlighting mostra um cinema mais político, explorando a problemática dos imigrantes poloneses, e tendo o ator Jeremy Irons em grande atuação.” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

Jerzy Skolimowski é um cineasta influente, que dirigiu mais de 20 filmes desde a sua estreia, em 1960, com Oko Wykol!, e já trabalhou em parceria com diversos artistas de renome – Roman Polanski e Andrzej Wajda entre eles. Considerando o currículo extenso, é difícil aplicar qualquer rótulo à obra do diretor polonês, comparado por Michel Ciment a um músico de jazz, por ser “todo ritmo e improvisação”. E é uma nota premiada de sua carreira que o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e o Centro Cultural Banco do Brasil têm agora a satisfação de exibir na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema. Moonlighting chega às telas do CCBB do Rio de Janeiro nos dias 23 e 24 deste mês, às 18h.

Skolimowski tem explorado constantemente em suas obras suas experiências de infância, assombrada pela Segunda Guerra Mundial. Quando criança, ele testemunhou a brutalidade dos conflitos armados – tendo sido, inclusive, resgatado dos escombros de uma casa destruída por uma bomba em Varsóvia. Seu pai, um membro da Resistência Polonesa, foi executado pelos nazistas e a mãe chegou a esconder uma família judia em casa, pedindo ao filho que conversasse e aceitasse doces dos soldados para manter as aparências.

Moonlighting é a quinta produção de uma leva de seis filmes semi-autobiográficos realizados pelo diretor entre 1964 e 1984, e convive com o contexto de conflito político através de quatro construtores poloneses, que vão a Londres para prestar serviço barato a um funcionário do governo. O grupo é liderado por Nowark (Jeremy Irons), encarregado de gerenciar o projeto e os companheiros, que por sua vez sofrem com as tentações do Ocidente e sentem falta de suas famílias. Sendo o único que fala inglês, Nowark usa isso como uma ferramenta para se impor aos demais. Mas quando uma agitação na Polônia provoca uma reação militar, ele tem que enfrentar uma situação muito mais difícil do que esperava.

Quando descobre que a Polônia foi subjugada à uma ditadura militar, Nowark faz de tudo para esconder a realidade dos outros construtores. Tendo que lidar com problemas como a total fatal de dinheiro e preocupações a respeito de sua mulher, que ele teme estar sendo seduzida por seu empregador, o cabeça do grupo se torna manipulador, em uma analogia que serve como o símbolo de um governo que manteve o povo na ignorância dos seus próprios problemas. Ao mesmo tempo, na tela, desenvolvemos uma simpatia pelo personagem, um pobre homem em terras estranhas e mais um peão nas mãos de um poder superior.

Um grande trunfo de Moonlighting é a excelente atuação do britânico Jeremy Irons, que aprendeu polonês para atuar no longa-metragem. Outros pontos fortes são os detalhes das imagens (como nas tempestades de poeira das quebras de paredes da construção, feitas com  ferramentas primitivas trazidas de Warsaw) e o ritmo da história, que encontra na linguagem uma forte aliada. Narrada na maior parte pelo protagonista, em um inglês carregado de sotaque da Polônia, os diálogos entre os construtores quase não existem. Naquele contexto de um mundo novo, cruel, onde dormem no chão, não entendem uma palavra da língua do país, passam fome e não têm nenhum dinheiro para gastar, os homens estão literalmente perdidos, e o seu silêncio sugere que até da própria linguagem eles foram privados.

Rodado na Inglaterra, Moolighting foi lançado em 1982 e foi um grande sucesso de crítica e de público, ganhando o prêmio de melhor filme no Festival de Cannes daquele ano. Um quarto de século após seu lançamento, o filme representa o maior sucesso comercial do diretor até hoje e ainda soa atual, ressoando no cotidiano de tantos imigrantes que estão tentando a sorte longe de suas casas, tendo que conviver com a distância e as dificuldades a que o trabalho os impõe.

Moonlighting é um tributo à flexibilidade de Skolimowski e à sua habilidade de não apenas encontrar os melhores recursos para contar uma história, mas de criar novos estilos de acordo com o conteúdo e com as circunstâncias de cada realização. No caso, houve menos de um mês entre a concepção da ideia, desenvolvida quando o diretor reformava sua casa no Oeste de Londres (o roteiro em si foi escrito em pouco mais de um dia), e as filmagens, rodadas quase completamente sob o teto do diretor. Inclusive, os construtores de Moonlighting realmente eram imigrantes da Polônia e trabalharam na construção da casa do diretor, tornando-se atores por um irônico acaso do destino.

Jerry Skolimowski afirma que faz filmes para agradar a si próprio. Para a nossa sorte,  com Moonlighting ele prova mais uma vez que tem muito talento para isso.  O filme é uma alegoria política e prosaica ao mesmo tempo, um drama bem contado merecedor do reconhecimento em Cannes e dos outros prêmios que recebeu. Depois de 17 anos de ostracismo, a leitura de Skolimowski migra agora das telas dos computadores para a tela grande do CCBB do Rio de Janeiro, na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema.


Andréa Azambuja

 

Sobre o diretor

Jerry Skolimowski nasceu em 1938 na Polônia e atualmente vive em Los Angeles, onde trabalha como pintor e ator. Quando criança, ele era tido como um causador de problemas e estava sempre envolvido em brincadeiras que desagradavam às autoridades da escola. Ele estudou etnografia, história e literatura na faculdade e fez aulas de Boxe, além de ter demonstrado ao longo da vida um particular interesse por jazz.

Formado em cinema pela conceituada Polish Film School, o cineasta também é escritor, e aos 20 anos de idade já tinha publicado diversos livros de poemas e contos, além de uma peça. Ele teve sua primeira experiência como ator enquanto cursava a universidade e estreou no filme “Innocent Sorcerers”, de 1960, dirigido por Andrzej Wajda. Em seguida, começou a trabalhar com o renomado cineasta Roman Polanski, colaborando com o roteiro de “Knife in the Water”, dois anos mais tarde.

Entre 1964 e 1984, Skolimowski dirigiu seis trabalhos semi-autobiográficos: Rysopis, Walkover, Barrier , Hands Up!, Moonlighting e Success is the Best Revenge, além de ter suas peças originais de “Le Départ” e “Deep End” adaptados. Entre 1970 e 1992, foram mais seis filmes, de produções relativamente grandes: The Adventures of Gerard; King, Queen, Knave; The Shout; The Lightship; Torrents of Spring e Ferdydurke. Fora estes, outra dezena de filmes faz parte da filmografia do diretor, que você pode conferir aqui.

Elenco
Jeremy Irons – Nowak
Eugene Lipinski – Banaszak
Jirí Stanislav – Wolski
Eugeniusz Haczkiewicz – Kudaj
Edward Arthur – Immigration Officer
Denis Holmes – Neighbor
Renu Setna – Junk Shop Owner
David Calder – Supermarket Manager
Judy Gridley – Supermarket Supervisor
Claire Toeman – Supermarket Cashier
Catherine Harding – Lady Shoplifter
Jill Johnson – Haughty Supermarket Customer
David Squire – Supermarket Assistant
Michael Sarne – Builder’s Merchant
Lucy Hornak – Wrangler Shop Assistant
Michael Sarne – Builders’ Merchant (as Mike Sarne)
Lucy Hornak – Wrangler Shop Assistant
Robyn Mandell – Wrangler Shop Assistant
Anne Tirard – Lady in Telephone Box (as Ann Tirard)
Christopher Logue – Workman
Hugh Harper – Newspaper Boy
Julia Chambers – Chemist’s Assistant
Fred Lee Own – Chinese Man

Equipe
Direção – Jerzy Skolimowski
Roteiro – Jerzy Skolimowski
Produção – Michael Guest, Mark Shivas, Jerzy Skolimowski
Design de Produção – Tony Woollard
Costume Design – Jane Robinson
Música- Stanley Myers
Cinematografia – Tony Pierce Roberts
Edição – Barrie Vince
Elenco – Debbie McWilliams

Distribuidoras
Miracle Films (1982) (UK) (theatrical)
MK2 Diffusion (1983) (France) (theatrical)
Universal Classics (1982) (USA) (theatrical)
Arcadia Digital (2005) (Cyprus) (TV) (DVD)
Braveworld (1991) (UK) (VHS)
Films sans Frontières (2003) (France) (DVD)
Indies Home Entertainment (2002) (Netherlands) (DVD)
PolyGram Video (1997) (UK) (VHS)
Trinity Home Entertainment (2005) (USA) (DVD)
Universal Home Video (2002) (USA) (VHS)

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