ZONA LIVRE


TAXIDERMIA, DE GYÖRGY PÁLFI
fevereiro 26, 2010, 12:20 am
Filed under: Filmes em exibição, Zona Livre | Tags: , ,

Hungria, 90min, 2007, cor, 35mm

>> inédito no Rio

26/02, às 16h, Sala 01
28/02, às 14h, Sala 01


“Conta-se por aí que uma jovem agrediu aos gritos seu namorado, na sua única exibição ocorrida até hoje no Brasil (São Paulo, 2006) após o fim de Taxidermia, segundo longa de György Pálfi. Ela questionava ferozmente o namorado sobre como ele teve coragem de levá-la para ver um filme como aquele. Mitos à parte, este longa húngaro com certeza é um dos filmes mais chocantes e de difícil digestão dos últimos anos. Felizmente estes adjetivos vêm acompanhados da impressionante habilidade do jovem diretor em reproduzir e nos proporcionar a experimentação de sentimentos usualmente escondidos dos nossos olhos e quase sempre represados em outros filmes. Tudo o que temos de mais grotesco, absurdo e desprezível é amplificado e “atirado” sobre a tela com muita destreza. Em diversos momentos remetendo categoricamente ao cinema de David Cronenberg, em sua busca intrépida de questionamentos sobre o corpo humano e sua modificação e mutilação forçadas, György Pálfi faz um cinema de estética apurada e com uma personalidade raríssima, pouco encontrada mesmo nos rincões da internet. Será que teremos a oportunidade de presenciar um novo caso como o da jovem e seu namorado em 2006?” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

Uma comédia negra, um filme de terror ou uma produção artística? É difícil enquadrar Taxidermia, longa-metragem de György Pálfi, em qualquer definição. É fácil dizer, porém, que é uma realização extrema, perturbadora, interessante e extremamente original. Quer tirar as suas conclusões? A Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema dá a chance, nos dias 26 e 28 próximos, às 16h e 14h respectivamente, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro.

György Pálfi é mais um exemplo de um jovem cineasta com muito talento que não tem medo de impor o seu estilo e que não tenta camuflar o seu peculiar modo de enxergar o mundo aderindo a uma linguagem cinematográfica convencional. Já com seu surpreendente longa-metragem de estreia, Hukkle (que a Zona Livre também exibiu no Rio de Janeiro este mês), o diretor chamou atenção pela estética apurada e pelo estilo intrépido. O filme passou por incontáveis festivais internacionais, arrecadando quase 20 prêmios na Europa, na Ásia e nos EUA.

Com Taxidermia não foi diferente. Apesar de conter cenas de difícil digestão, que envolvem escatologia, remoção de órgãos, mutilação e todos os tipos de perversão – tudo envolvendo muita carne, sangue e detalhes bizarros -, o filme foi um sucesso em festivais de cinema no mundo todo e consolidou a fama de Pálfi como um diretor de futuro promissor e, também, bastante controverso.

Em função das imagens surreais e explícitas, o diretor húngaro vem levantando comparações com cineastas como David Cronenberg e Luis Buñuel. Assim como nas produções dos cineastas citados, quem tem estômago fraco ou não gosta de nada fora do convencional provavelmente não irá se interessar pelo longa-metragem de Pálfi lançado em 2006. Por outro lado, quem é chegado em obras diferentes, de personalidade e que apresentam um novo ângulo de enxergar a natureza humana tem em Taxidermia um prato cheio de diversão.


Taxidermia é dividido em três partes distintas, sendo que os dois primeiros segmentos foram inspirados em histórias do escritor Lajos  Parti Nagy, e o terceiro foi escrito por Palfi e sua esposa, Zsofia Ruttkay. Assistindo a uma mistura de surrealismo com fatos históricos, testemunhamos o fim do século XX através dos olhos de três gerações de homens de uma problemática família da Hungria, ligados entre si por motivos recorrentes.

Tudo começa na Segunda Guerra Mundial, quando o simplório soldado Vandel Morosgoványi (Csaba Czene) serve a um cruel tenente em uma fazenda no meio do nada da Hungria. Forçado a viver em uma cabana precária, ele desenvolve uma estranha obsessão sexual pelas filhas e pela mulher de seu superior, o que o dirige a trágicas consequências.  Já neste início, podemos perceber as técnicas de filmagem inovadoras de Pálfi, antecipadas em Hukkle (2002). As fantasias eróticas de Vendel são brilhantemente realizadas, com tomadas inusitadas e de grande força gráfica, como quando o velho bebe a água onde se banharam as meninas ou quando se masturba até que emita chamas de seu corpo. As elaboradas tomadas de câmera são acentuadas, ainda, pela excelente trilha-sonora do DJ de Trip Hop Amon Tobin, nascido no Rio de Janeiro.


De uma relação sexual de Vendel com a esposa corpulenta de seu chefe nasce Kálmán (Gergo Tróscsányi), protagonista do segundo segmento da história. Obeso, ele disputa pela Hungria competições de ingestão de comida, que espera que sejam reconhecidas como um esporte olímpico. Premiado e famoso, o atleta conhece Gizella (Adél Stanczel), uma representante feminina do mesmo tipo modalidade, com quem casa e gera o pequeno Lajos (Mark Bischoff). Através de um design de produção que evoca o kitsch no início dos anos 60 do bloco soviético, Pálfi mostra um mundo onde os massivos competidores são tidos como símbolos sexuais e são festejados por multidões de fãs. Além disso, inventa jargões científicos para o esporte em questão e, prestando uma grande atenção aos detalhes, proporciona um rico e colorido espetáculo aos olhos.


A terceira história, contemporânea, é mais calma, menos maníaca do que as anteriores, mas tão ou mais perturbadora. Lajos é então um quieto taxidermista sem perspectivas no amor. Ele é frustrado à sua maneira como seu avô havia sido décadas antes, porém com uma mente que funciona de uma maneira bem diferente. Dedicado à profissão, quando não está trabalhando ou falhando nas tentativas de levar uma vida normal, Lajos cuida do pai, que alcançou dimensões tão monstruosas que não consegue mais se mover e sair da cadeira em seu claustrofóbico apartamento. Kálmán vive para comer e cuidar de seus três gatos gigantes e não tem nada além de duras palavras para o filho, até que este sucumbe e decide entregar-se a um catártico final.


Apesar de cada episódio funcionar como uma peça individual, Pálfi convida os espectadores a reconhecer seu ritmo visual e textual como um todo, moldando o tom a fim de dar uma unidade à obra. Assim como em Hukkle, desde o princípio sua câmera insaciável passeia numa celebração de possibilidades visuais, unindo indivíduos sem respeito próprio e sem senso comum que experimentam vidas anormais, continuamente revisitando os motivos da bestialidade e da natureza animal dos seres humanos.

Mesmo apresentando todos os tipos de perversão sexual, György Pálfi não tem intenções eróticas em Taxidermia. Pelo contrário, o sexo tende a estar ligado ao grotesco, justamente para destacar a natureza bestial do homem. Apesar das desconfortantes imagens, o filme não é um mero show de horrores ou uma amostra de um cinema vazio feito para chocar; o diretor consegue encontrar a humanidade de suas personagens e, ao invés de simplesmente exibi-los, se esforça para trazer suas histórias à tona.

É compreensível que muita gente se assuste com o estilo cru de Pálfi. No entanto, quem estiver disposto a encarar Taxidermia irá se surpreender com o olhar atento do diretor para o detalhe, em um filme meticulosamente construído. Apesar da premissa e do visual nauseantes, Taxidermia trabalha ao mesmo tempo em um nível visceral e intelectual, constituindo uma engraçada, complexa e, por que não dizer, poética contemplação da natureza animal do homem. Considerando sua produção anterior, parece residir nesta peculiar maneira de explorar a complexidade do ser humano o grande trunfo do diretor – que o CineEsquemaNovo (CEN) e o Centro Cultural Banco do Brasil têm novamente o prazer de apresentar por aqui.
Andréa Azambuja

Elenco

Csaba Czene (Vendel Morosgoványi)
Gergõ Trócsányi (Kálmán Balatony)
Marc Bischoff (Lajos Balatony)
Adél Stanczel (Gizi Aczél)
István Gyuricza (Hadnagy/Young lieutenant)
Piroska Molnár (Hadnagyné /The Lieutenants Wife)
Gábor Máté (Old Kálmán)
Géza Hegedûs D. (Dr. Andor Regõczy)
István Hunyadkürti (Jenõ Bá)
Zoltán Koppány (Béla Miszlényi)

Créditos

Direção – György Pálfi
Roteiro – Zsófia Ruttkay, György Pálfi
Produção – Péter Miskolczi, Gábor Váradi, Gabriele Kranzelbinder, Alexander Dumreicher-Ivanceanu, Alexandre Mallet-Guy, Emilie Georges,
Produtoras – Eurofilm Studio, Amour Fou Filmproduktion, Memento Films Production, La Cinéfacture
Co- Produtora – Arte France Cinema
Baseado nas histórias de Lajos Parti Nagy
Cinematografia – Gergely Pohárnok
Design de Produção – Adrien Asztalos
Música – Amon Tobin, Albert Márkos
Edição – Réka Lemhényi
Som – Tamás Zányi
Figurino – Júlia Patkós
Cenário – Géza Szöllõsi
Elenco –   Attila Réthly
Maquiagem – Hildegard Haide

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