ZONA LIVRE


TRASH HUMPERS, DE HARMONY KORINE
março 4, 2010, 7:00 pm
Filed under: Debates da mostra, Filmes em exibição, Zona Livre | Tags: ,

EUA, 78min, 2009, cor, VHS (exibição em DVD)
>> inédito no Brasil

09/02, 19h, Sala 01 + Debate online com o diretor
21/02, 18h, Sala 01


“Após ter rodado um filme de U$$ 8 milhões (o que para seu universo é muito), Korine abriu mão de estruturas e orçamentos e voltou à verdadeira essência de filmar, buscando captar e vivenciar coerentemente a miserabilidade de seus desajustados personagens. O resultado é repulsivo, ultrajante e de difícil digestão, mas de uma estranha sensibilidade, que acaba por se tornar inusitadamente comovente” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

É com esse fôlego que começa nesta terça, dia 09, a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, que o Centro Cultural Banco do Brasil e o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) trazem ao Rio de Janeiro, de nove a 28 de fevereiro.

Trash Humpers, do aclamado diretor Harmony Korine, inaugura os trabalhos em sessão marcada para as 19h, seguida de debate online com o diretor norte-americano via Skype.

Harmony Korine dispensa apresentações. Com um currículo que inclui Gummo (1997), um dos filmes mais importantes dos anos 90, e o roteiro de Kids, de Larry Clark, o diretor, roteirista, escritor e fotógrafo conquistou o gosto não só de cineastas importantes (Lars Von Trier, Bernardo Bertolucci e Gus Van Sant, para citar alguns), como uma legião de fãs e seguidores por todo o mundo – isso apesar de suas temáticas e estilo pouco convencionais. Taxado de provocador e radical, um certo “enfant terrible”, Korine joga de acordo com suas próprias regras. Párias sociais, imagens de revirar o estômago, infâncias disfuncionais, desordens mentais e pobreza são temas comuns às suas narrativas, normalmente não-lineares e bastante experimentais, compostas por fragmentos de eventos altamente simbólicos ou metafóricos. Ele compara o seu modo de criação a um álbum de fotos pessoais: separadas, cada figura é estranha, fora de contexto, mas se compiladas em um volume e apresentadas juntas se tornam capazes de oferecer uma narrativa.

Trash Humpers é uma obra exemplar do estilo do cineasta: uma realização audaciosa e autêntica, na contramão da linguagem do cinema convencional. A concepção da obra, no entanto, partiu de situações singelas. Enquanto passeava à noite com seu cachorro em uma viela atrás de sua casa em Nashville, Tennessee, Korine encontrou um monte de latas de lixo reviradas e jogadas no chão. Aquele cenário, que parecia uma zona de guerra, iluminado pelos postes de luz, chamou sua atenção pela dramaticidade; tudo começou a sugerir formas humanas, abusadas e isoladas. Então se lembrou de quando era criança e costumava ver um grupo de velhos sujos perambulando pela rua, bebendo, dançando e urinando pelas janelas das casas alheias. O resultado? “Desenterrado da paisagem escondida do pesadelo americano, Trash Humpers acompanha um pequeno grupo de mascarados parasitando através das sombras e margens de um universo desconhecido. Cruelmente documentado pelos integrantes, seguimos as ações chocantes desses verdadeiros sociopatas como nunca visto antes. Habitando um mundo de sonhos partidos e além dos limites da moralidade, eles se chocam com uma América dividida. No limite de uma ode ao vandalismo, este é um novo tipo de horror, palpável e cru”, diz um dos textos oficiais do longa.

Os personagens de Trash Humpers não apenas protagonizam atos grotescos, como exibem uma total satisfação em fazê-lo, numa inusitada celebração à destruição. Entre tantas bizarrices (o nome sugere uma: hump = fazer sexo com alguém ou alguma coisa), eles dançam, cantam e repetem frases sem sentido, compondo uma improvável poesia saída do caos. Paradoxalmente, há quase um otimismo, uma doçura naqueles seres humanos vivendo no seu próprio e idealizado mundo. Korine arrisca dizer que muita gente pode até sentir inveja da liberdade que aquelas figuras experimentam, e completa (em uma ótima entrevista que você pode ler aqui): “Eu sinto de verdade um profundo amor e admiração por esses personagens. Não pelo que eles fazem, mas por como o fazem. É uma ode ao vandalismo e à criatividade da força destrutiva. Às vezes há uma real beleza em explodir coisas, em despedaçar e queimar. Pode ser tão esclarecedor como construir um objeto. Eu quis que esses personagens fossem quase uns artistas – artistas do mal”.

Cansado de toda a burocracia envolvida em Mister Lonely (2007), seu filme anterior e o mais caro de sua carreira até agora (foi produzido com US$ 8,2 milhões e contou com roteiro de seu irmão, Avi), Korine quis trabalhar o mais rápido quanto fosse possível. Dessa forma, Trash Humpers foi filmado em cerca de duas semanas, com orçamento beirando o zero e partindo apenas de algumas anotações e testes com fotografias. A rotina de gravação não envolveu mais do que o atrevimento da equipe: o grupo de falsos velhos – incluindo um incógnito Korine – apenas saiu pelas ruas, dormindo embaixo de pontes e fazendo todas as demências nas quais podiam pensar, enquanto documentavam uns aos outros. “Foi bastante intenso, porque não parava nunca, era constante”, descreve o diretor, após esclarecer que não se preocupou com as cenas, com o som ou as cores durante o processo – mas sim em produzir algo real, “orgânico”, que fizesse sentido para ele mesmo.

O longa foi filmado em VHS, com câmera na mão e sem roteiro, combinando com a premissa peculiar e a espontaneidade das representações. A ideia era que o filme parecesse uma velha e maluca fita de vídeo-cassete que cai na mão de alguém por motivos inquestionáveis e surreais, como que encontrada por acaso enterrada em algum buraco, ou em um sótão abarrotado. “Eu cresci na era do VHS. Lembro de ganhar minha primeira câmera e reaproveitar a fita várias vezes. Havia algo de estranho em ficar gravando por cima e por cima, e pequenas imagens e momentos continuarem voltando por um segundo ou dois quando você assistia. Havia uma estranha beleza no analógico. Você quase tinha que forçar os olhos para ver as coisas através das imagens granuladas e borradas. Há algo de sinistro nisso tudo”, diz Korine, com certeza bem sucedido na intenção. Em certo ponto das filmagens ele pensou, inclusive, em fazer um monte de cópias e deixá-las nas calçadas em frente a restaurantes, delegacias de polícia e em outros lugares comuns para acompanhar o que aconteceria. Curiosamente, a aura “suja” e doméstica do VHS, reforçada com falhas na imagem e informações em playback acrescentadas na edição, rendeu ao filme o prêmio máximo do proeminente Festival Internacional de Documentários de Copenhagen de 2009, mesmo se tratando de uma ficção – e também estará na edição 2010 do festival South By SouthWest.

Pode-se dizer que o contraponto de Trash Humpers – o poético versus o grotesco – se estende a toda a carreira de Harmony Korine. Ou se ama, ou se odeia. Na opinião do artista, no entanto, ele não faz nada além de capturar a cara dos Estados Unidos e os seus moradores, seus estacionamentos vazios e seus postes de luz iluminando os sofás abandonados no meio da rua. Para ele a arte é a voz de um homem, é uma ideia, um ponto de vista; e quem não enxergar da mesma forma, que vire as costas. Sejam filmados em VHS ou DVD, sejam lançados oficialmente ou apenas caiam na rede, sejam vistos na telona do cinema ou na telinha do computador, os filmes de Harmony Korine nunca passam despercebidos.

Andréa Azambuja


Um pouco da vida e da carreira do diretor
:

Harmony Korine nasceu em Bolinas, Califórnia, em 1943. Ele cresceu em Nashville como um adolescente solitário, até se mudar para a casa da avó em Nova York, onde peregrinava pelos cinemas cult de Manhattan em busca de clássicos da sétima arte (entre as preferências estavam Cassavetes, Herzog, Godard e Alan Clarke).

Sua carreira cinematográfica começou aos 19 anos, embalada por um skate no Washington Square Park. Entre uma e outra manobra arriscada com os amigos, Korine avistou o (clássico) fotógrafo Larry Clark e entregou a ele um roteiro que tinha em seu bolso, sobre um pai que levava o filho para ver uma prostituta. Impressionado, Clark pediu que ele reescrevesse o script, ou que fizesse um novo, contando um pouco de sua rotina. Três semanas depois estava pronto o roteiro de Kids, uma amostra de 24h da vida cheia de sexo e drogas de um grupo de adolescentes de Manhattan. Estrelado por Leo Fitzpatrick, Chloe Sevigny e Rosário Dawson (as últimas nos seus primeiros papeis no cinema), Kids foi definido pela crítica norte-americana como “uma brilhante chamada para a América acordar”, ao mesmo tempo em que foi taxado de representar uma descarada promoção da exploração juvenil. Mesmo controversa, a obra estabeleceu Korine como uma forte e potencial figura do cinema underground emergente nos EUA, além de botá-lo em contato com o produtor Cary Woods, que viria a patrocinar sua estreia na direção: Gummo, produzido com US$ 1 milhão.

Gummo foi lançado em 1997 e mostra a vida de dois amigos na remota cidade de Xênia, Ohio, devastada por um tornado na década de 70. Pela narrativa fragmentada (foi montado com fotos Polaroid, filmes em Super 8 e 35mm), de trilha sonora eclética (junta Madonna a death metal e Roy Orbison) e povoada por atores iniciantes, Korine foi declarado “gênio” por muitos críticos consagrados em todo o mundo. Fora isso, recebeu cartas pessoais dos “fãs” Bernardo Bertolucci e Werner Herzog (hoje seu colaborador), que contou ao New York Times: “Quando eu vi um pedaço de bacon frito grudado na parede do banheiro em Gummo, aquilo me tirou da cadeira. Korine é uma voz muito clara de uma geração de cineastas que está tomando uma nova posição. Não vai dominar o mundo, mas e daí?”.

E esse foi só o começo. Desde então, Harmony Korine trabalhou em diversos projetos, que incluem The Diary of Anne Frank (Part II) e Fight Harm (pelo qual quebrou diversas costelas e um dedo), foi convidado a participar do Dogma 95 – movimento pelo qual dirigiu Julian Donkey Boy -, fez o roteiro de Ken Park e assinou Mister Lonely. Isso sem contar as investidas fora do cinema: dirigiu videoclipes para bandas como Sonic Youth e Cat Power, escreveu uma música para Bjork, lançou cd e publicou livros de fotografias e textos, entre outras façanhas das quais você pode ler mais aqui.

Harmony Korine vem se afirmando como um dos mais controversos e independentes cineastas da contemporaneidade. Suas realizações têm, acima de tudo, personalidade, e é disso que o cinema precisa. Com boas ideias e iniciativa, o barco navega por conta própria. Prova disso é Trash Humpers, filme low budget que abre com categoria a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema. Popular apenas em alguns festivais no exterior e nas telas de raros computadores, ele é emblemático do motivo desse festival: proporcionar uma reflexão sobre as vias paralelas da informação e embalar com inovação o circuito off samba desse verão.

Curiosidades:

O pai de Korine, Sol, produzia documentários nos anos 70 e ensinou o filho a manejar sua primeira câmera.

Ele estudou Inglês na Tisch School of the Arts, na New York University, por um semestre, mas largou a faculdade para se tornar um dançarino profissional de sapateado.

Mesmo depois de ter lançado Gummo, dançou sapateado na rua em troca de trocados.

Passou anos cortando grama pelo dinheiro.

Mudou seu nome por um breve período para Laird Henn. A troca não vingou, mas está documentada em uma música da banda Sun City Girls que contém uma gravação deixada por ele na secretária eletrônica de um dos integrantes apresentando-se como Laird Henn.

Tem uma filha com a esposa Rachel Korine, Lefty Bell Korine.

Em 1999, revelou para a revista Dazed & Confused os seus dez filmes preferidos, em uma lista liderada por Pixote: A Lei do Mais Fraco, do argentino residente no Brasil Hector Babenco. A lista segue assim:

2- Badlands e
3- Days of Heaven, de Terrence Malick
4- Fat City, de John Huston
5- Stroszeck, de Werner Herzog
6- The Killing of a Chinese Bookie e
7- A Woman Under the Influence, de Jonh Cassavetes
8- McCabe and Mrs. Miller, de Robert Altman
9 – Out of the Blue, de Dennis Hopper
8- Hail Mary, de Jean-Luc Godard

Antes de Mister Lonely, Korine escreveu sobre um porco chamado Trotsky, em uma história que se passaria durante uma guerra racial na Flórida. No filme, um garoto iria selar o porco e botar adesivos em suas patas, para poder escalar paredes e jogar bombas molotov do alto. Korine declarou que essa seria sua obra de arte, mas o roteiro foi queimado e nunca pôde ser realizado, apesar dos esforços do criador: ele gastou mais de U$$ 11.000 para tentar recuperá-lo de seu velho computador, resgatando, porém, apenas uma frase do texto.

Antes da estreia oficial de Trash Humpers, no Festival de Toronto de 2009, Korine avisou a audiência que se alguém tinha a tendência de sair no meio de filmes, que fizesse aquilo naquele momento.

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Trash Humpers

Elenco:

Rachel Korine
Brian Kotzue
Travis Nicholson
Harmony Korine
Chris Gantry
Kevin Gutherie
Paige Spain
Dave Cloud
Chris Crofton
Charles Ezell

Equipe Técnica:

Direção: Harmony Korine
Produção Executiva: Agnes B. e Charles- Marie Anthonios
Produção: Amina Dasmal e Robin Fox
Edição: Leo Scott e Michael Carter
Som: Alex Altman
Pós-Produção: Ground Zero
Pós-som: Digital Audio Post

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4 Comentários so far
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demente.

o filme, e o cara.

Comentário por valente

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