ZONA LIVRE


TRASH HUMPERS, DE HARMONY KORINE
março 4, 2010, 7:00 pm
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EUA, 78min, 2009, cor, VHS (exibição em DVD)
>> inédito no Brasil

09/02, 19h, Sala 01 + Debate online com o diretor
21/02, 18h, Sala 01


“Após ter rodado um filme de U$$ 8 milhões (o que para seu universo é muito), Korine abriu mão de estruturas e orçamentos e voltou à verdadeira essência de filmar, buscando captar e vivenciar coerentemente a miserabilidade de seus desajustados personagens. O resultado é repulsivo, ultrajante e de difícil digestão, mas de uma estranha sensibilidade, que acaba por se tornar inusitadamente comovente” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

É com esse fôlego que começa nesta terça, dia 09, a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, que o Centro Cultural Banco do Brasil e o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) trazem ao Rio de Janeiro, de nove a 28 de fevereiro.

Trash Humpers, do aclamado diretor Harmony Korine, inaugura os trabalhos em sessão marcada para as 19h, seguida de debate online com o diretor norte-americano via Skype.

Harmony Korine dispensa apresentações. Com um currículo que inclui Gummo (1997), um dos filmes mais importantes dos anos 90, e o roteiro de Kids, de Larry Clark, o diretor, roteirista, escritor e fotógrafo conquistou o gosto não só de cineastas importantes (Lars Von Trier, Bernardo Bertolucci e Gus Van Sant, para citar alguns), como uma legião de fãs e seguidores por todo o mundo – isso apesar de suas temáticas e estilo pouco convencionais. Taxado de provocador e radical, um certo “enfant terrible”, Korine joga de acordo com suas próprias regras. Párias sociais, imagens de revirar o estômago, infâncias disfuncionais, desordens mentais e pobreza são temas comuns às suas narrativas, normalmente não-lineares e bastante experimentais, compostas por fragmentos de eventos altamente simbólicos ou metafóricos. Ele compara o seu modo de criação a um álbum de fotos pessoais: separadas, cada figura é estranha, fora de contexto, mas se compiladas em um volume e apresentadas juntas se tornam capazes de oferecer uma narrativa.

Trash Humpers é uma obra exemplar do estilo do cineasta: uma realização audaciosa e autêntica, na contramão da linguagem do cinema convencional. A concepção da obra, no entanto, partiu de situações singelas. Enquanto passeava à noite com seu cachorro em uma viela atrás de sua casa em Nashville, Tennessee, Korine encontrou um monte de latas de lixo reviradas e jogadas no chão. Aquele cenário, que parecia uma zona de guerra, iluminado pelos postes de luz, chamou sua atenção pela dramaticidade; tudo começou a sugerir formas humanas, abusadas e isoladas. Então se lembrou de quando era criança e costumava ver um grupo de velhos sujos perambulando pela rua, bebendo, dançando e urinando pelas janelas das casas alheias. O resultado? “Desenterrado da paisagem escondida do pesadelo americano, Trash Humpers acompanha um pequeno grupo de mascarados parasitando através das sombras e margens de um universo desconhecido. Cruelmente documentado pelos integrantes, seguimos as ações chocantes desses verdadeiros sociopatas como nunca visto antes. Habitando um mundo de sonhos partidos e além dos limites da moralidade, eles se chocam com uma América dividida. No limite de uma ode ao vandalismo, este é um novo tipo de horror, palpável e cru”, diz um dos textos oficiais do longa.

Os personagens de Trash Humpers não apenas protagonizam atos grotescos, como exibem uma total satisfação em fazê-lo, numa inusitada celebração à destruição. Entre tantas bizarrices (o nome sugere uma: hump = fazer sexo com alguém ou alguma coisa), eles dançam, cantam e repetem frases sem sentido, compondo uma improvável poesia saída do caos. Paradoxalmente, há quase um otimismo, uma doçura naqueles seres humanos vivendo no seu próprio e idealizado mundo. Korine arrisca dizer que muita gente pode até sentir inveja da liberdade que aquelas figuras experimentam, e completa (em uma ótima entrevista que você pode ler aqui): “Eu sinto de verdade um profundo amor e admiração por esses personagens. Não pelo que eles fazem, mas por como o fazem. É uma ode ao vandalismo e à criatividade da força destrutiva. Às vezes há uma real beleza em explodir coisas, em despedaçar e queimar. Pode ser tão esclarecedor como construir um objeto. Eu quis que esses personagens fossem quase uns artistas – artistas do mal”.

Cansado de toda a burocracia envolvida em Mister Lonely (2007), seu filme anterior e o mais caro de sua carreira até agora (foi produzido com US$ 8,2 milhões e contou com roteiro de seu irmão, Avi), Korine quis trabalhar o mais rápido quanto fosse possível. Dessa forma, Trash Humpers foi filmado em cerca de duas semanas, com orçamento beirando o zero e partindo apenas de algumas anotações e testes com fotografias. A rotina de gravação não envolveu mais do que o atrevimento da equipe: o grupo de falsos velhos – incluindo um incógnito Korine – apenas saiu pelas ruas, dormindo embaixo de pontes e fazendo todas as demências nas quais podiam pensar, enquanto documentavam uns aos outros. “Foi bastante intenso, porque não parava nunca, era constante”, descreve o diretor, após esclarecer que não se preocupou com as cenas, com o som ou as cores durante o processo – mas sim em produzir algo real, “orgânico”, que fizesse sentido para ele mesmo.

O longa foi filmado em VHS, com câmera na mão e sem roteiro, combinando com a premissa peculiar e a espontaneidade das representações. A ideia era que o filme parecesse uma velha e maluca fita de vídeo-cassete que cai na mão de alguém por motivos inquestionáveis e surreais, como que encontrada por acaso enterrada em algum buraco, ou em um sótão abarrotado. “Eu cresci na era do VHS. Lembro de ganhar minha primeira câmera e reaproveitar a fita várias vezes. Havia algo de estranho em ficar gravando por cima e por cima, e pequenas imagens e momentos continuarem voltando por um segundo ou dois quando você assistia. Havia uma estranha beleza no analógico. Você quase tinha que forçar os olhos para ver as coisas através das imagens granuladas e borradas. Há algo de sinistro nisso tudo”, diz Korine, com certeza bem sucedido na intenção. Em certo ponto das filmagens ele pensou, inclusive, em fazer um monte de cópias e deixá-las nas calçadas em frente a restaurantes, delegacias de polícia e em outros lugares comuns para acompanhar o que aconteceria. Curiosamente, a aura “suja” e doméstica do VHS, reforçada com falhas na imagem e informações em playback acrescentadas na edição, rendeu ao filme o prêmio máximo do proeminente Festival Internacional de Documentários de Copenhagen de 2009, mesmo se tratando de uma ficção – e também estará na edição 2010 do festival South By SouthWest.

Pode-se dizer que o contraponto de Trash Humpers – o poético versus o grotesco – se estende a toda a carreira de Harmony Korine. Ou se ama, ou se odeia. Na opinião do artista, no entanto, ele não faz nada além de capturar a cara dos Estados Unidos e os seus moradores, seus estacionamentos vazios e seus postes de luz iluminando os sofás abandonados no meio da rua. Para ele a arte é a voz de um homem, é uma ideia, um ponto de vista; e quem não enxergar da mesma forma, que vire as costas. Sejam filmados em VHS ou DVD, sejam lançados oficialmente ou apenas caiam na rede, sejam vistos na telona do cinema ou na telinha do computador, os filmes de Harmony Korine nunca passam despercebidos.

Andréa Azambuja


Um pouco da vida e da carreira do diretor
:

Harmony Korine nasceu em Bolinas, Califórnia, em 1943. Ele cresceu em Nashville como um adolescente solitário, até se mudar para a casa da avó em Nova York, onde peregrinava pelos cinemas cult de Manhattan em busca de clássicos da sétima arte (entre as preferências estavam Cassavetes, Herzog, Godard e Alan Clarke).

Sua carreira cinematográfica começou aos 19 anos, embalada por um skate no Washington Square Park. Entre uma e outra manobra arriscada com os amigos, Korine avistou o (clássico) fotógrafo Larry Clark e entregou a ele um roteiro que tinha em seu bolso, sobre um pai que levava o filho para ver uma prostituta. Impressionado, Clark pediu que ele reescrevesse o script, ou que fizesse um novo, contando um pouco de sua rotina. Três semanas depois estava pronto o roteiro de Kids, uma amostra de 24h da vida cheia de sexo e drogas de um grupo de adolescentes de Manhattan. Estrelado por Leo Fitzpatrick, Chloe Sevigny e Rosário Dawson (as últimas nos seus primeiros papeis no cinema), Kids foi definido pela crítica norte-americana como “uma brilhante chamada para a América acordar”, ao mesmo tempo em que foi taxado de representar uma descarada promoção da exploração juvenil. Mesmo controversa, a obra estabeleceu Korine como uma forte e potencial figura do cinema underground emergente nos EUA, além de botá-lo em contato com o produtor Cary Woods, que viria a patrocinar sua estreia na direção: Gummo, produzido com US$ 1 milhão.

Gummo foi lançado em 1997 e mostra a vida de dois amigos na remota cidade de Xênia, Ohio, devastada por um tornado na década de 70. Pela narrativa fragmentada (foi montado com fotos Polaroid, filmes em Super 8 e 35mm), de trilha sonora eclética (junta Madonna a death metal e Roy Orbison) e povoada por atores iniciantes, Korine foi declarado “gênio” por muitos críticos consagrados em todo o mundo. Fora isso, recebeu cartas pessoais dos “fãs” Bernardo Bertolucci e Werner Herzog (hoje seu colaborador), que contou ao New York Times: “Quando eu vi um pedaço de bacon frito grudado na parede do banheiro em Gummo, aquilo me tirou da cadeira. Korine é uma voz muito clara de uma geração de cineastas que está tomando uma nova posição. Não vai dominar o mundo, mas e daí?”.

E esse foi só o começo. Desde então, Harmony Korine trabalhou em diversos projetos, que incluem The Diary of Anne Frank (Part II) e Fight Harm (pelo qual quebrou diversas costelas e um dedo), foi convidado a participar do Dogma 95 – movimento pelo qual dirigiu Julian Donkey Boy -, fez o roteiro de Ken Park e assinou Mister Lonely. Isso sem contar as investidas fora do cinema: dirigiu videoclipes para bandas como Sonic Youth e Cat Power, escreveu uma música para Bjork, lançou cd e publicou livros de fotografias e textos, entre outras façanhas das quais você pode ler mais aqui.

Harmony Korine vem se afirmando como um dos mais controversos e independentes cineastas da contemporaneidade. Suas realizações têm, acima de tudo, personalidade, e é disso que o cinema precisa. Com boas ideias e iniciativa, o barco navega por conta própria. Prova disso é Trash Humpers, filme low budget que abre com categoria a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema. Popular apenas em alguns festivais no exterior e nas telas de raros computadores, ele é emblemático do motivo desse festival: proporcionar uma reflexão sobre as vias paralelas da informação e embalar com inovação o circuito off samba desse verão.

Curiosidades:

O pai de Korine, Sol, produzia documentários nos anos 70 e ensinou o filho a manejar sua primeira câmera.

Ele estudou Inglês na Tisch School of the Arts, na New York University, por um semestre, mas largou a faculdade para se tornar um dançarino profissional de sapateado.

Mesmo depois de ter lançado Gummo, dançou sapateado na rua em troca de trocados.

Passou anos cortando grama pelo dinheiro.

Mudou seu nome por um breve período para Laird Henn. A troca não vingou, mas está documentada em uma música da banda Sun City Girls que contém uma gravação deixada por ele na secretária eletrônica de um dos integrantes apresentando-se como Laird Henn.

Tem uma filha com a esposa Rachel Korine, Lefty Bell Korine.

Em 1999, revelou para a revista Dazed & Confused os seus dez filmes preferidos, em uma lista liderada por Pixote: A Lei do Mais Fraco, do argentino residente no Brasil Hector Babenco. A lista segue assim:

2- Badlands e
3- Days of Heaven, de Terrence Malick
4- Fat City, de John Huston
5- Stroszeck, de Werner Herzog
6- The Killing of a Chinese Bookie e
7- A Woman Under the Influence, de Jonh Cassavetes
8- McCabe and Mrs. Miller, de Robert Altman
9 – Out of the Blue, de Dennis Hopper
8- Hail Mary, de Jean-Luc Godard

Antes de Mister Lonely, Korine escreveu sobre um porco chamado Trotsky, em uma história que se passaria durante uma guerra racial na Flórida. No filme, um garoto iria selar o porco e botar adesivos em suas patas, para poder escalar paredes e jogar bombas molotov do alto. Korine declarou que essa seria sua obra de arte, mas o roteiro foi queimado e nunca pôde ser realizado, apesar dos esforços do criador: ele gastou mais de U$$ 11.000 para tentar recuperá-lo de seu velho computador, resgatando, porém, apenas uma frase do texto.

Antes da estreia oficial de Trash Humpers, no Festival de Toronto de 2009, Korine avisou a audiência que se alguém tinha a tendência de sair no meio de filmes, que fizesse aquilo naquele momento.

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Trash Humpers

Elenco:

Rachel Korine
Brian Kotzue
Travis Nicholson
Harmony Korine
Chris Gantry
Kevin Gutherie
Paige Spain
Dave Cloud
Chris Crofton
Charles Ezell

Equipe Técnica:

Direção: Harmony Korine
Produção Executiva: Agnes B. e Charles- Marie Anthonios
Produção: Amina Dasmal e Robin Fox
Edição: Leo Scott e Michael Carter
Som: Alex Altman
Pós-Produção: Ground Zero
Pós-som: Digital Audio Post

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STINGRAY SAM, DE CORY MCABEE

EUA, 2009, 60 min, p&b e cor, 35mm
(exibição em DVD)

>>>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

27/02, às 19h, Sala 01 + debate ao vivo com o diretor

“Stingray Sam dispensa muitas apresentações. Criado sob influência direta do costume que criou-se de ver filmes no youtube divididos em trechos de 10 minutos, e em ipods e suas pequenas janelas, relacionado diretamente com a continuidade da existência do 35mm, Cory McAbee consegue dar um grande passo à frente nesse seu segundo longa metragem, perseguindo e aprimorando suas valências e surpreendentes habilidades que demonstrou no seu filme anterior (leia sobre American Astronaut), mas se reinventando de maneira muito sagaz, inclusive sobre o próprio fato de fazer ficção científica, criando um dos filmes mais relevantes dessa mostra, na nossa opinião. Stingray Sam foi lançado em 35mm no importantíssimo festival de Sundance nos EUA, mas tem sua distribuição feita simultaneamente, não só por outros renomados festivais internacionais e salas de cinema, mas também para download no site oficial do filme, sendo disponível inclusive em formato para ipods, contendo junto um interessante material adicional sobre o filme com fotos, trilha sonora, making of e etc. Como foi dito antes, a última obra de McAbee dispensa muitas palavras de apresentação. Todas essas informações não seriam relevantes se ele não conseguisse transcender toda essa originalidade de suas idéias e criar um filme que fale por si mesmo. Para nós, ele conseguiu.” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

Um western espacial envolvendo dois personagens, Stingray Sam e seu cúmplice Quasar Kid, na tentativa de salvar uma garota, seqüestrada pelo líder geneticamente concebido de um planeta muito rico. Esquisito? Não quando vem à tona o nome de Cory McAbee, cineasta que a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema tem mais uma vez o prazer de apresentar na tela grande do CCBB do Rio, dessa vez através de Stingray Sam, longa-metragem de 2009.

Inédito no Rio de Janeiro (exibido no Brasil apenas no CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre – CEN de 2009), o filme tem sessão marcada para às 19h do próximo dia 27 e será sucedido de um debate ao vivo com o diretor.

Cory McAbee conquistou uma legião de fãs com a criativa e improvável premissa que mistura cowboys, lasers e coreografias musicais de The American Astronaut, longa-metragem lançado em 2001. Na estreia, realizada no Festival de Sundance daquele ano, críticos de todas as partes lutaram consigo mesmos para atribuir superlativos ao filme e para descrever exatamente o que tinham acabado de assistir, sem entender de que maneira uma mistura tão inusitada podia ser tão formidável. Os elogios foram inúmeros, ecoando especialmente em um ponto: o estilo inovador e inigualável de McAbee. 

The American Astronaut foi realizado com um baixíssimo orçamento, provando como uma ideia realmente original na cabeça pode ser mais importante do que muitas cédulas de dólares no bolso. Em Stingray Sam, o cineasta mantém o mesmo estilo do filme anterior, importando dele a temática principal, justamente com a intenção de executar exatamente a curiosa definição que foi atribuida ao primeiro: um faroeste de ficção científica musical passado no espaço. 


Assim como em The American Astronaut, o filme se passa no espaço, onde os condenados “cowboys” Stingray Sam e seu cúmplice de longa data, Quasar Kid (Crugie), ganham de volta a liberdade em troca de uma missão: resgatar uma menina mantida em cativeiro por um líder concebido geneticamente de um país muito rico. Embalando as venturas e desventuras da dupla, temos novamente muitos números musicais interpretados pela The Billy Nayer Show, a banda liderada por McAbbe na vida real, que também assume o papel de protagonista. Dessa vez, as imagens em preto e branco são intercaladas por planos em coloridos, que dão vida às tiradas engraçadas, aos diálogos bem escritos e às paródias de McAbee.

A grande diferença entre os dois longas-metragens está no formato: Stingray Sam é dividido em seis episódios de dez minutos, que possuem uma seqüência lógica, mas que podem ser assistidos de maneira independente, na tela do ipod, do celular, do youtube, ou onde mais você quiser. São eles: Factory Fugitives, The Forbidden Chromosome, The Famous Carpenter, Corporate Mascot Rehabilitation Program, Shake Your Shackles e Heart of a Stingray.

A ideia partiu de um trabalho anterior realizado pelo diretor para o Festival de Sundance (no qual é figura carimbada desde 1992), que o convidou para dirigir um filme que seria distribuído via celular. Dessa nova proposta audiovisual, surgiu Reno (2007), no qual foram utilizadas técnicas de colagens e fotografias still, tiradas com uma pequena câmera digital (Nikon Coolpix 3100) e tratadas em Photoshop, aliadas a algumas cenas filmadas com uma Sony HDV 1ZU. O sucesso da produção foi tanto, que Cory McAbee foi convidado a rodar o mundo dando palestras sobre filmes produzidos para as pequenas telas e sobre tecnologia.

Cory McAbee supera suas habilidades a cada produção. Com Stingray Sam ele dá um passo à frente, reinventando possibilidades e propondo a reflexão de como os filmes vêm sendo vistos na contemporaneidade, sendo, assim, uma obra emblemática para a Zona Livre, cujo objetivo é trazer à tona a discussão sobre as vias paralelas da informação. O filme, desenvolvido para todos os tipos e tamanhos de tela, não apenas circulou por renomados festivais de cinema, a exemplo do Festival de Sundance, como foi distribuído em larga escala na internet. Ele está disponível para download, inclusive, no site oficial, acompanhado de um interessante material adicional, com fotos, trilha sonora, making of e cenas dos bastidores.

Incluir performances musicais em seus filmes foi o jeito que McAbee encontrou de declarar seu antigo interesse pela música, cultivado desde a adolescência. O desenho, a pintura e o cinema, assim como o talento musical, foram aprendidos naturalmente por ele, autodidata, cuja educação formal só se estendeu até o fim do ensino médio – segundo ele, “finalizado por um ato de caridade”. Pelo estilo descompromissado e inovador, provavelmente um sintoma da liberdade criativa de quem não se molda a normas formais, o cineasta conquistou a reputação de ser uma das vozes mais originais da cena independente de cinema nos últimos anos.

Concebido para ser visto a qualquer hora do dia e em qualquer circunstância, no ônibus, na cama, numa sala de aula, no cabelereiro… Stingray Sam chega agora à sala de cinema do CCBB do Rio de Janeiro, seguido de um debate ao vivo com o diretor, que estará disponível para esclarecer qualquer mistério do seu universo paralelo. Aperto o cinto e descubra esse exemplo inovador, cativante e único do que o cinema pode nos oferecer atualmente.
Andréa Azambuja  

Saiba mais sobre a vida do diretor aqui.


Prêmios
Elenco

Ron Crawford – Old Scientist
Crugie – Quasar Kid
Maura Ruth Hashman – Heaven
David Hyde Pierce – Narrador (voz)
Jessica Jelliffe – The Clerk
Robert Lurie – Cubby
Cory McAbee – Stingray Sam
Willa Vy McAbee – Girl The Carpenter’s Daughter
Caleb Scott – The Artist
Soren Scott – Ed
Frank Stewart – Barnaby
Joshua Taylor – Fredward
Michael Wiener – Smarmy Scientist

Equipe

Produtora – BNS Productions
Direção – Cory McAbee
Direção de Fotografia – Scott Miller
Edição de Som – Karl Derfler
Montador / editor – Andrew Blackwell
Produção – Becky Glupczynski & Bobby Lurie
Roteiro –  Cory McAbee
Trilha sonora original – The Billy Nayer Show



AMERICAN ASTRONAUT, DE CORY MCABEE

EUA, 90min, 2001, P&B, 35mm
(exibição em DVD)

>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

25/02, às 20h, Sala 01
27/02, às 17h, Sala 01

“Ao lado de Stingray Sam, os dois filmes dirigidos por Cory McAbee são provavelmente os títulos desta mostra que mais facilmente cativam e instigam as pessoas a assisti-lo. Esta empatia é uma qualidade que, indiretamente, exige do diretor cada vez maior destreza em seu desenvolvimento narrativo e cinematográfico, de modo a satisfazer a curiosidade e expectativas do seu público. Este longa do diretor norte-americano consegue trazer à tona a essência, a criatividade e a simplicidade das ficções científicas dos anos 1950 – e até mesmo as precursoras dessa época, como a Metropolis de Fritz Lang em 1927. A perfeita sintonia entre direção, fotografia e som faz com que a obra se desprenda de qualquer limitação que seu orçamento pouco abundante poderia acarretar. Lançado em 2001, American Astronaut passa facilmente a impressão de ter sido feito décadas atrás. Mas acima de tudo, o que interessa é que esta obra nos permite sentir o quanto o cinema ainda é feito de idéias, habilidade e destreza, indiferente de época, tecnologia ou orçamento. Uma ótima notícia para os amantes de ficção científica que ainda não o conhecem.” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

Um semi-autobiográfico filme de faroeste musical passado no espaço em um futuro indeterminado. Não compreendeu a mistura? Pois assim é The American Astronaut, longa-metragem do californiano Cory McAbee, que o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e o Centro Cultural Banco do Brasil trazem ao Rio de Janeiro, na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema.

Para desvendar o mistério que conjuga cowboys, lasers e coreografias musicais, é só aparecer no cinema do CCBB, no próximo dia 25, às 20h, ou no dia 27, às 17h. Além disso, o diretor estará ao vivo na sala de cinema do CCBB na próxima sexta-feira, 27, para esclarecer qualquer curiosidade e bater um papo com a plateia em um debate que será realizado após a exibição de Stingray Sam, sua realização de 2009, marcada para as 19h.


Aí vai uma prévia: além de assinar a direção e o roteiro de American Astronaut, Cory McAbbe também protagoniza a história, na pele de Samuel Curtis, um comerciante interplanetário em um universo onde todos os planetas e quase todas as luas são habitadas.  A missão de Curtis começa com a entrega de um gato em um bar do asteróide Ceres, que sedia uma competição de dança – e onde ele encontra um antigo amigo, Blueberry Pirate. Como pagamento pelo trabalho, Curtis recebe um experimento de clonagem ainda em andamento, que irá criar uma rara criatura: uma menina viva de verdade.

Por sugestão de Pirata, Curtis leva a Real Live Girl para Júpiter, planeta habitado somente por homens, propondo a troca da “garota” (àquela altura, uma pequena caixa) pelo The Boy Who Actually Saw A Woman Breast – um adolescente tratado como realeza devido ao seu único e exótico contato com uma mulher (“era redondo e macio” é tudo que ele diz a respeito da experiência para para a atenta plateia em Júpiter).

Curtis tem a intenção de levar The Boy a Vênus, planeta onde só vivem mulheres, para trocá-lo pelos restos de Johnny R., um homem que passou sua vida servindo como experimento ao povo feminino. Tudo isso para então chegar ao motivo inicial da epopéia: levar o que sobrou de Johnny R. de volta à sua família na Terra, e de quem irá receber uma substancial recompensa. Tudo isso seria simples o bastante se Curtis não fosse perseguido (sem saber) pelo sangüinário assassino Professor Hess – uma figura  enigmática pertencente a seu passado e que adora matar – mas só se não tiver motivo nenhum. Em um sistema solar dominado pelo comércio e pelo perigo (e por números musicais), pode ser que dessa vez o bem prevaleça.

Quando The American Astronaut estreou em Sundance em 2001, críticos de todas as partes lutaram consigo mesmos para atribuir superlativos ao filme e descrever exatamente o que tinham acabado de assistir. Depois de diversas aparições na mostra norte-americana e em um irrestrito número de festivais em todo o mundo, as realizações de Cory McAbee ainda são difíceis de definir. Uma mistura de Alphaville (Jean –Luc Godard), Star Wars e Twin Peaks? Ou um Forbidden Zone nas mãos da dobradinha David Lynch – Ed Wood? A lista é grande, e encontra recorrente ressonância nos filmes do Midnight Movies e nas ficções científicas da década de 50.

O fato é que Cory McAbee construiu seu nome por ser uma das vozes mais originais da cena independente de cinema nos últimos anos. Com The American Astronaut, ele prova mais uma vez como o fator “orçamento” pode não ser tão importante, quando se tem uma ideia realmente criativa e poderosa em mente. Filmado em preto e branco em 35mm, o filme apresenta pinturas animadas para retratar as viagens espaciais, ângulos surreais de filmagem, comentários fora de sequência, ótimas manipulações de luz e sombras e estranhos números musicais, providenciados pela banda The Billy Nayer Show – e liderada por um McAbee cantor. Com tudo isso, o diretor cria a sua própria gravidade, engraçada, criativamente rodada, diferente e altamente entretida e cativante.

The American Astronaut foi baseado nas experiências pessoais de McAbee. A história foi inspirada em um período de três anos quando o cineasta não tinha onde morar e se sustentava trabalhando como segurança em bares e boates e tocando com sua banda. Ele resolveu tornar os acontecimentos parte de uma ficção científica, importando o fator western das suas férias de criança, quando ia para a casa de seus avós no deserto de Nevada. Se por um lado isso pode parecer um projeto de vaidade, baseado em sua vida, escrito, dirigido e musicado por ele, por outro The American Astronaut é mais o reflexo da liberdade de um artista que nunca teve nenhuma formação formal, que ensinou a si mesmo a desenhar, a pintar, a compor, a tocar e a fazer cinema; seu histórico sugere que o que ele realmente intenciona é permitir que sua imaginação se expresse livremente.


Se tivesse entrado em cartaz nos cinemas ao redor do mundo, provavelmente muita gente não iria conseguir entender ou definir as reações que American Astronaut provoca. Com vasta circulação na internet, esse western musical que celebra as ficções científicas e supera seus parâmetros muitas vezes claustrofóbicos chega agora à tela grande de cinema no Rio de Janeiro, numa rara oportunidade de ver o quanto uma mistura excêntrica pode parecer tão certa. Vá ao CCBB e sinta de mente aberta o inusitado mundo do astronauta americano num faroeste estrelar de Cory McAbee, que volta a ser o palco da atenção da mostra com Stingray Sam, em cartaz no dia 27, às 19h – em sessão seguida de debate ao vivo com o diretor.
Andréa Azambuja

Sobre o diretor

Cory McAbee é o mais novo de três filhos de uma família do Norte da Califórnia. Seu pai foi um mecânico; sua mãe, uma professora da pré-escola; e seus avós moravam no deserto de Nevada, para onde ele ia durante as férias de verão. McAbee passou sua adolescência morando com os pais e, por não saber dirigir, gastava os dias fazendo experimentos em pinturas e desenhos. Sua educação formal terminou no Ensino Médio, o qual ele só completou por um ato de caridade; ele nunca leu sequer um livro antes dos 20 e poucos anos.

Aos 20 anos, McAbee conheceu Bobby Lurie na casa de um amigo em comum. Lurie e esse amigo iam montar uma banda e o convidaram para o primeiro ensaio, onde descobriram que nenhum dos integrantes conhecia o mesmo material. McAbee acabou juntando-se a eles como compositor e vocalista, e por 11 meses os garotos fizeram várias performances na Califórnia – até que Lurie rompeu com os companheiros, entre outros motivos, porque o medo de palco de McAbee era algo embaraçoso demais para se presenciar. No mesmo ano, ele comprou uma harpa, aprendeu a tocar e começou a escrever músicas novas.

Cory McAbee foi para São Francisco quando recebeu uma oferta para trabalhar de segurança em uma boate, e por 12 anos exerceu o cargo de chefe de segurança em bares e clubes de striptease no estado. Em 1989, ele e Lurie formaram o grupo The Billy Nayer Show, um ano antes de completar as pinturas de seu primeiro filme (o processo demorou três anos), uma animação chamada Billy Nayer. Em 1991, a dupla gravou a faixa final para a produção, lançada em 1992 no Festival de Sundance, e criou a BNS Productions. Ao longo dos anos seguintes, ele escreveu e dirigiu diversos curtas-metragens, que incluem The Ketchup and Mustard Man e The Mao on The Moon. Como um meio de distribuição independente de seus trabalhos, McAbee e Lurie desenvolveram uma performance ao vivo incorporando a música aos filmes, e The Billy Nayer Chronicles foi apresentado em Sundance em 1995 como o primeiro evento multi-mídia do festival.

Depois que The Billy Nayer Chronicles tinha seguido o seu curso, McAbee largou o emprego e perdeu seu apartamento. Ele viveu sem casa por três anos, período no qual compilou idéias para seu primeiro longa-metragem musical, The American Astronaut. Enquanto se virava pintando rostos de manequins em uma fábrica, ou como chefe de segurança em bares, McAbee escreveu e reescreveu o roteiro de The American Astronaut e compôs músicas para os álbuns do BNS: The Villain That Love Built e Return To Brigadoon.

Ele acabou partindo para Chicago, onde viveu por dois anos e onde o amigo Lurie conseguiu fundos com o co-produtor Joshua Taylor para  The American Astronaut, passando a trabalhar como roteirista, diretor, ator compositor, músico e pintor. O filme foi terminado em 2001, sendo lançado no Festival de Sundance daquele ano.

McAbee foi morar no Brooklyn, em Nova York, no verão de 2001, passando os anos seguintes em turnê com The Billy Nayer Show e escrevendo músicas e roteiros. Em dezembro de 2006, ele foi contratado pelo Festival de Sundance para criar um curta-metragem para distribuição em telefones celulares. Reno foi lançado no festival de 2007, ocasião onde o cineasta pela primeira vez tornou-se o dono de um telefone celular. A produção foi considerada a favorita pelos usuários, e, como resultado, o cineasta foi convidado a falar sobre os filmes produzidos para as pequenas telas e tecnologia em conferências ao redor do mundo, chegando agora ao Rio de Janeiro, na mostra Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema.

THE AMERICAN ASTRONAUT

Elenco

Direção – Cory McAbee
Produção – Bobby Lurie, William “Pinetop” Perkins, Joshua Taylor
Written by Cory McAbee
Cinematografia – W.Mott Hupfel III
Edição – Pete Beaudreau
Distribuição – Artistic License Films

Equipe

Cory McAbee – Samuel Curtis/Silver Miner
Rocco Sisto – Professor Hess
Greg Russell Cook – The Boy Who Actually Saw a Woman’s Breast
James Ransone – Bodysuit
Annie Golden – Cloris
Joshua Taylor – Blueberry Pirate
Tom Aldredge – Old Man
Peter McRobbie – Lee Vilensky
Bill Buell – Eddie
Mark Manley – Henchman #1 (Hey Boy!)
Ned Sublette – Henchman #2 (Hey Boy!)



VÍDEO – DEBATE COM HARMONY KORINE NA ZONA LIVRE
fevereiro 19, 2010, 5:24 am
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No último dia 09, a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema começou com o pé direito o circuito de filmes estrangeiros que está trazendo ao Brasil. A programação exibiu na tela de cinema do CCBB do Rio a última realização de um controverso e conhecido cineasta: Trash Humpers, de Harmony Korine.

Após a sessão de cinema, Korine bateu um papo com os curadores do festival e com público através do Skype, em um momento de inusitada intimidade, falando direto de sua casa nos EUA acompanhado da esposa e do filho. Foi possível perceber que Korine transparece em seus filmes muito de sua personalidade, irreverente, descompromissado, que diz o que pensa, o que dá às suas produções um caráter muito particular e livre de qualquer amarra moral.  Abaixo, um trechinho do debate com o relaxado Korine, para ter uma ideia:

A Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema é uma realização do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e do Centro Culturl Banco do Brasil. O festival começou no dia 09 de fevereiro e se estende até o dia 28, no CCBB  do Rio de Janeiro, com o que há de melhor no cenário de filmes de renome na internet, mas que raramente têm a chance de chegar às telas de cinema.



SEGUNDO DEBATE DA ZONA LIVRE: PELO SKYPE, MARIANNA PALKA FALA SOBRE SUA ESTREIA, EM GOOD DICK
fevereiro 18, 2010, 2:06 am
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Apesar de tratar de temas profundos, Good Dick é um filme leve, engraçado e otimista. E assim também é Marianna Palka, diretora de 28 anos, escocesa, alegre e cheia de entusiasmo. Este foi o clima para que ela, direto de Los Angeles, respondesse como a protagonista do segundo debate da Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, realizado dia 11/02, à noite, após a primeira exibição de seu filme no Brasil.

Através do Skype, Palka bateu um papo com o público e os curadores do festival, Davi Pretto e Bruno Carboni, sobre como foi ter escrito e dirigido o seu primeiro longa-metragem.  Como era de se esperar, Good Dick teve uma ótima recepção do público da mostra; o conto de fadas contemporâneo sobre um casal bem incomum arrecada elogios por onde quer que passe.

Primeira realização de Marianna Palka como diretora, Good Dick alia personagens muito bem desenvolvidos e um tema pesado à leveza com que a diretora demonstra em sua personalidade. O resultado é uma obra madura, que comunica mensagens importantes com honestidade (o que se reflete no título) e mostra uma peculiar habilidade de Palka em entender o complexo “dar e receber” da interação humana – e as motivações por trás dessa relação.

Nascida em Glasgow,  Palka contou que a premissa de seu primeiro longa-metragem surgiu quando ela estava na Polônia e viu uma pesquisa sobre o abuso de mulheres.  “Não pude acreditar quando ouvi que uma em cada três mulheres é vítimas de abuso sexual antes da vida adulta. Isso já era razão suficiente para eu fazer um filme”, explicou. À essa triste realidade, ela juntou a vontade de fazer uma obra com pessoas reais, de histórias comuns, e o afeto pelo país do leste europeu.

Palka se diz influenciada pelo cinema e pelo teatro polonês, e dele também “importou” o protagonista de Good Dick, interpretado por seu namorado e sócio na vida real, Jason Ritter. A relação com a Polônia também é explícita no desenrolar do filme graças à referência ao diretor Krzysztof Kieslowski. Outro cineasta polonês pautado no debate foi Roman Polanski, em função de seu clássico Repulsa ao Sexo (1965), filme que também trata de uma jovem paranóica diante do sexo oposto. Ironicamente, Polanski encontra-se exilado na Suíça atualmente, em razão de acusações de ter cometido crimes sexuais há mais de trinta anos.

Para ajudá-la na construção dos personagens de Good Dick, Palka pediu para que toda a equipe fizesse listas sobre como eles achavam que iriam lidar com a vida se tivessem sofrido abusos na infância. As observações de cada um não foram utilizadas no roteiro, mas sim como orientação, para lembrar a todos da equipe os sentimentos com que estavam lidando.

Os textos foram aproveitados especialmente por Ritter e por ela (o casal de protagonistas) a fim de que chegassem exatamente nos personagens que ela tinha imaginado: uma mulher retraída e traumatizada, o “dragão”, como definiu, e um perfeito cavalheiro; como ela apontou, “um tipo que é só amor, só bondade, um masculino que não tem nada a ver com força, aparência ou status, mas é algo genuíno”. Casualmente ou não, o nome da produtora que Palka abriu em sociedade com o namorado chama-se “Morning Knight” (Knight = cavaleiro, ou um homem corajoso que salva alguém, especialmente uma mulher, de uma situação de perigo).

Marianna começou sua carreira no teatro e afirmou que esse foi um dos motivos da realização de Good Dick. Em seu primeiro roteiro, ela quis desenvolver os personagens de forma natural e crua, como nos palcos, sem se preocupar com o resultado. A intenção era experimentar e ver se ia funcionar. Como ela contou, o longa foi rodado com o orçamento de US$ 200.000, valor suficiente quase que apenas para a aparelhagem técnica e para as cópias em 35mm. Por isso, todos os envolvidos trabalharam realmente pela vontade de desenvolver o projeto, para ver “no que ia dar”.

Esse clima de cooperação, que começou lá nos textos de observações de cada um,  se estendeu a todo o processo, desde os envolvidos nos bastidores às pequenas participações no filme. Um exemplo disso é o personagem do homem mais velho da trama. Ele é vivido por Charles Durning, um ator antigo dos EUA, que só trabalhou no filme porque Palka, fã de carteirinha, escreveu o papel especialmente para ele. Outra amostra é Jared Nelson Smith,  multiinstrumentista que compôs e executou todas as canções que compõem a trilha sonora de Good Dick.


Superando em muito as expectativas de Marianna Palka e de toda a equipe, Good Dick foi muito bem recebido pela crítica internacional de cinema e pelo público, e já rendeu à maioria da equipe outros trabalhos. Tendo distribuído de forma independente o seu filme, sucesso também em função dos sites de compartilhamento online, Palka comentou que só vê “prós” na internet para a indústria cinematográfica, simpatizando com a causa da Zona Livre, de produzir a reflexão sobre as vias paralelas de informação.

Na hora de dar tchau, Palka afirmou que acha incrível que seu filme esteja sendo visto no Brasil mesmo sem ter entrado em cartaz nos cinemas e afirmou ter adorado poder falar através do Skype com o público daqui. Ademocratização da informação, a principal intenção da mostra, estava acontecendo na prática.
Andréa Azambuja



GOOD DICK, DE MARIANNA PALKA
fevereiro 11, 2010, 5:52 am
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86min, 2008, cor, 35mm (exibição DVD)
>> inédito no Brasil

11/02, 19h, Sala 01 + Debate online com a diretora
12/02, 18h, Sala 01

“O nome do longa de estréia da diretora e atriz Marianna Polka pode causar um receio inicial, mas Good Dick chama a atenção justamente pela maneira sutil e inusitada com que a história é conduzida, ao mostrar a relação de uma garota depressiva, que aluga filmes pornôs regularmente, com o funcionário da locadora de vídeo. Este é mais um exemplo emblemático do cinema independente norte-americano que não chega freqüentemente às salas de cinema, mas que a internet vem ajudando a semear. Porém, ao contrário de muitos outros filmes dessa cena, temos aqui um trabalho com maturidade acima da média, e com um tratamento mais profundo em relação aos seus personagens” – Davi Pretto e Bruno Carnboni, curadores da Zona Livre

Good Dick foi uma das principais surpresas do Festival de Sundance e do Festival Internacional de Edimburgo de 2008. Escrito, dirigido e estrelado por Marianna Palka, que foi premiada pela direção do longa na mostra na capital escocesa, é este conto de fadas contemporâneo sobre um casal complexo que a Zona Livre – Mostra Internacionalde Cinema tem a satisfação de exibir nas telas do CCBB. A primeira sessão está marcada para esta quarta-feira, 11, às 20h, e será seguida de um debate ao vivo com a diretora, via Skype. A segunda exibição acontece do dia 12, às 18h.


O filme recebeu ótimos elogios da crítica de cinema norte-americana e foi um sucesso em diversos festivais espalhados pelo mundo. “Excepcionalmente engraçado”, “doce”, “sofisticado”, “intrigante”, “genuinamente sexy” e “fascinante” são alguns dos termos empregados em veículos renomados para adjetivar a história incomum da primeira realização de Marianna Palka, escocesa de Glasgow com 28 anos. Como o nome antecipa, Good Dick é um filme de honestidade, que mostra uma peculiar habilidade da diretora em entender o complexo “dar e receber” da interação humana e as motivações por trás dessa relação, às vezes dolorosas.

Palka e seu namorado e sócio na vida real, Jason Ritter, estrelam o casal complicado da trama. Ela é uma garota reservada e problemática, de cabelos sujos e poucas palavras, que vai diariamente a uma vídeo-locadora em busca de filmes eróticos de má qualidade. Ele é um dos atendentes da loja, um cara amigável e falante, que aparentemente mora em um carro e logo começa a alimentar por ela uma estranha obsessão, iniciando uma série de incansáveis investidas para se aproximar. Apesar da resistência inicial por parte da garota, os dois desenvolvem um incomum relacionamento, que altera a rotina claustrofóbica que a cerca. Conforme se tornam próximos, a aversão sexual dela vai de encontro ao otimismo dele, até que as atitudes agressivas da personagem de Palka abalam a ambos e o relacionamento chega ao fim. Profundamente afetada pela presença daquele homem em sua vida, a jovem percebe que tem a coragem necessária para enfrentar os fantasmas de seu passado.

Apesar de lidar com questões profundas, Good Dick é um filme engraçado e otimista. Bem escrito, consegue passar com maturidade e leveza algumas mensagens importantes. A química entre os protagonistas ajuda, transparecendo mesmo nas cenas mais inusitadas. Por exemplo: a primeira resposta positiva da personagem de Palka às tentativas do atendente acontece quando ele pergunta se pode recolher o lixo jogado por todo o apartamento dela. Depois disso ele lava o cabelo da garota e assim, aos poucos, vai se aproximando e conquistando um pouco da afeição daquela pessoa totalmente desacreditada na raça humana. Enquanto ele começa a acompanhá-la na sua rotina reclusa de filmes ruins, é ao mesmo tempo maltratado por ela, que o ofende de todas as formas – dizendo que ele é feio, que trabalha em um lugar deprimente e que tem um pênis pequeno. Não que ela já tenha visto; o mais perto que os dois chegam de sexo é quando ela finge estuprá-lo em cima da mesa da cozinha. E, quando se beijam, ele está estritamente proibido de tocá-la. Apesar de sabermos que nada disso é muito normal, tudo parece natural; nos seus termos, é assim que essas duas criaturas estão se apaixonando.

Já foi possível perceber que os personagens de Good Dick não têm nome. Segundo a autora, esta foi uma maneira que ela e Ritter encontraram para se colocarem no lugar do casal da tela sem, ao mesmo tempo, saber de fato quem eles são. “Eu realmente gosto da ideia de nós chegarmos muito perto deles e nos sentirmos realmente íntimos, e aí perceber: ‘oh, nós nem conhecemos eles de verdade. Eles podiam ser qualquer um’”, explica.

Falando em títulos, de acordo com Palka, Good Dick não precisa ser considerado de forma literal e pode representar coisas diferentes para cada um; para os personagens, acima de tudo, o nome representa persistência. “Eu acho maravilhoso, em 2008, explorar a sexualidade de um jeito que não tem nada a ver com a única versão que nos é oferecida. Há muito mais por aí e é interessante falar e fazer filmes a respeito disso. Quando eu estava escrevendo o roteiro, eu realmente estava me perguntando ‘o que é sexy? O que isso realmente significa para as pessoas?’. Fazendo isso, Good Dick se tornou apenas, naturalmente, o título’”, conta. Para quem ficou interessado nas respostas a que Palka chegou, elas estão aqui, também exemplificadas por nomes de livros, filmes e cenas marcantes.

A origem da diretora mora na comunidade de Maryhill, uma zona operária de Glasgow, onde desde pequena demonstrou interesse pelo teatro (especialmente pelo da Polônia) e pelo cinema. Na adolescência, ela começou a produzir vídeos apenas para ela mesma, que demonstravam o mundo que a cercava. É o caso de By My Very Self, sobre a sua irmã bipolar Nina, e seu pai, que sofre da Doença de Huntington. Outra produção amadora do período foi chamada de For My American Friends, vídeo sobre a vida em Mayhill, onde ela menciona a vontade antiga de ser atriz. E é por conta disso que, em busca do seu destino, aos 17 anos mudou-se para Nova York – sozinha, com pouco dinheiro e sem lugar para ficar, para estudar na Atlantic Theater Company, dedicando-se à carreira de atriz.

Desde então, Palka vem trabalhando em diversos projetos como atriz, que incluem papeis na série de TV Derek and Simon e na produção para o Youtube Drunk History, dirigida por Jeremy Konner. Ela também liderou o elenco do filme Day of the Dead, de Nick Towne; trabalhou em Orchids, de Bryce Dallas Howard; em Carne, dirigido por Brock Enright; e concorreu ao prêmio de Melhor Atriz no Ticket Holders Awards de Los Angeles, por sua performance em The Lonesome West, de Martin McDonagh’s. Atualmente ela mora em L.A., onde recentemente fundou a produtora Morning Knight com o namorado Jason Ritter.

Good Dick foi o primeiro roteiro que Palka escreveu e a sua primeira realização como diretora. O filme, de baixo orçamento, foi lançado e distribuído de forma independente por Palka e por seus co-produtores, Ritter, Jen Dubin e Cora Olso. Seu lançamento mundial se deu na competição dramática de Sundance, em 2008, recebendo ótimas respostas do público e da crítica especializada. Naquele ano, ela foi a diretora mais jovem no festival e a única mulher participando da Dramatic Competition. Além disso, foi convidada a integrar o júri da Fundação Sloan no Festival de Sundance 2010. Na Europa, Good Dick foi lançado oficialmente no Festival de Edimburgo, onde a diretora foi honrada com o Skillset New Director’s Award, dado a ela por Sean Connery.

Passando de tela em tela dos computadores, Good Dick chega agora ao Rio de Janeiro, com toda a sua honestidade, que você pode assistir em tela grande, na sala de cinema do Centro Cultural Banco do Brasil. Confira os primeiros passos da Marianna Palka, uma diretora de talento e iniciativa que, se depender do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e o CCBB, ainda vai dar muito o que falar por aqui.
Andréa Azambuja

* No site oficial de Good Dick está disponível um blog que Marianna Palka escreveu durante as filmagens. Lá você também pode conferir um manifesto que a autora escreveu sobre a história.

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Prêmios (pág.12)

GOOD DICK

Elenco
Marianna Palka (Mulher)
Jason Ritter (Homem)
Eric Edelstein (Eric)
Mark Webber (Derek)
Martin Starr (Simon)
Tom Arnold (Pai)

Equipe Técnica
Escritora/ Diretora: Marianna Palka (Writer/Director)
Produtoras: Cora Olson e Jennifer Dubin
Diretor de Fotografia: Andre Lascaris
Compositor/ Trilha sonora: Jared Nelson Smith
Editor: Chris Kroll



“Trash Humpers” abre a Zona Livre e a série de debates: via Skype, Harmony Korine fala de cinema na tela do CCBB
fevereiro 10, 2010, 5:30 pm
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Começou ontem, com o pé direito e online com os Estados Unidos, a versão carioca da Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, nascida em Porto Alegre no CineEsquemaNovo 2009 e que acontece ao longo de todo este mês de fevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil da capital carioca.

Trash Humpers, última produção do aclamado e controverso Harmony Korine, marcou o pontapé inicial da programação. A projeção foi seguida por um debate online via Skype com o próprio Korine, diretamente de sua casa nos EUA, como você pode ver nas fotos deste post:

Como era de se esperar, Trash Humpers não passou ileso junto ao público que compareceu ao CCBB ontem (09) à noite para a sessão de abertura da mostra. Certamente, ninguém ficou apático frente à violência e à poesia do longa-metragem, gravado em Nashville, Tennessee, que mostra os comportamentos grotescos e polêmicos de um grupo de mascarados em atos de vandalismo gratuito. Pode-se dizer que o filme, montado com situações repulsivas, mas, ao mesmo tempo, de inusitadas doçura e poesia, refletiu-se perfeitamente no público, provocando ao mesmo tempo o desconforto e o fascínio por ele.

“Um filme desses sempre é difícil. Claro que tem gente que desiste, mas quem se comunicou com a obra não teve como ficar indiferente. Na realidade, é um filme que não deixa ninguém indiferente: ou você entra no espírito e se deixa levar, ou vai recebê-lo de uma outra forma, talvez não tão agradável. Isso já é bem esperado pela gente, muitos dos filmes da mostra são assim. Trash Humpers, especialmente, é um filme de muita personalidade. Eu sou um entusiasta de Korine, então sou suspeito para falar”, comentou Davi Pretto, curador da mostra ao lado de Bruno Carboni. Juntos, eles fizeram o meio de campo do bate-papo online do cineasta com os espectadores – que, durante aproximadamente 40 minutos, puderam conhecer um pouco mais sobre a vida do diretor.

Harmony Korine entrou via Skype direto de sua casa em Nova York, ao lado do filho e da esposa, com a naturalidade de quem faz e diz o que quer. Um dos pontos ressaltados pelo cineasta foi que seus projetos, acima de tudo, são desenvolvidos com a intenção da própria satisfação. Ele tem uma ideia, quer comunicá-la, vai lá e executa, sem pensar no resultado e se o filme será bem aceito pelo público ou pela crítica. Essa autonomia, explicou ele, não significa que não esteja de portas abertas para projetos maiores, desde que possa estar mais preocupado com o ser, do que em como vai ser.

Korine contou da concepção da história de Trash Humpers, desenvolvida a partir da mistura de uma imagem visual do tempo presente com uma lembrança do passado. Enquanto passeava à noite com seu cachorro em uma viela atrás de sua casa em Nashville, Korine encontrou um monte de latas de lixo reviradas e jogadas no chão. Aquele cenário, que parecia uma zona de guerra, iluminado pelos postes de luz, chamou sua atenção pela dramaticidade. Então lembrou de quando era criança e costumava ver um grupo de velhos sujos perambulando pela rua, bebendo, dançando e urinando pelas janelas das casas alheias, e quis fazer um filme.

Trash Humpers foi realizado com orçamento mínimo, durante cerca de duas semanas. Sua distribuição foi feita de forma independente, aparecendo em diversos festivais de cinema no exterior. Assim como alguns dos outros trabalhos de Korine, o filme conquistou um especial destaque na internet, suscitando um dos objetivos da mostra: proporcionar a reflexão sobre as vias paralelas da informação.

Quanto a este tema, Korine afirmou que “as pessoas devem fazer o que estiver ao seu alcance para ter acesso à informação”. Sendo assim, se alguém quiser exibir seus filmes em uma sala grande, para uma grande plateia, claro que vai ser ótimo: ele prefere que os filmes aconteçam na experiência do cinema. Porém, se este não for o caso, e a única opção for baixar da internet, que seja assim: “o mais importante é que as produções sejam vistas, não interessa de que forma”.

O clima do bate-papo na sala de cinema do CCBB foi de intimidade, com muito bom humor e sarcasmo por parte de Korine – que, entre risadas e piadas, filmava a filha Lefty Bell Korine, e a esposa, Rachel Korine, para a plateia ver. A descontração do momento deu uma boa ideia de como devem ter sido os sets de filmagem de Trash Humpers, cujo elenco foi formado pelo diretor, Rachel e mais alguns amigos. As cenas do longa não foram ensaiadas ou preparadas: o grupo só saiu batendo nas casas de pessoas, entrando e fazendo o que bem entendiam pelas ruas de Nashville, dando à produção uma aura de documentário na contramão do cinema convencional. Conforme Korine, nem se trata exatamente de um filme, mas de um retrato de uma realidade. E da mesma forma foi a estreia da Zona Livre: um retrato “real” de Harmony Korine e de sua personalidade, muito à vontade em satisfazer a própria honestidade.
Andréa Azambuja