ZONA LIVRE


TRASH HUMPERS, DE HARMONY KORINE
março 4, 2010, 7:00 pm
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EUA, 78min, 2009, cor, VHS (exibição em DVD)
>> inédito no Brasil

09/02, 19h, Sala 01 + Debate online com o diretor
21/02, 18h, Sala 01


“Após ter rodado um filme de U$$ 8 milhões (o que para seu universo é muito), Korine abriu mão de estruturas e orçamentos e voltou à verdadeira essência de filmar, buscando captar e vivenciar coerentemente a miserabilidade de seus desajustados personagens. O resultado é repulsivo, ultrajante e de difícil digestão, mas de uma estranha sensibilidade, que acaba por se tornar inusitadamente comovente” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

É com esse fôlego que começa nesta terça, dia 09, a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, que o Centro Cultural Banco do Brasil e o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) trazem ao Rio de Janeiro, de nove a 28 de fevereiro.

Trash Humpers, do aclamado diretor Harmony Korine, inaugura os trabalhos em sessão marcada para as 19h, seguida de debate online com o diretor norte-americano via Skype.

Harmony Korine dispensa apresentações. Com um currículo que inclui Gummo (1997), um dos filmes mais importantes dos anos 90, e o roteiro de Kids, de Larry Clark, o diretor, roteirista, escritor e fotógrafo conquistou o gosto não só de cineastas importantes (Lars Von Trier, Bernardo Bertolucci e Gus Van Sant, para citar alguns), como uma legião de fãs e seguidores por todo o mundo – isso apesar de suas temáticas e estilo pouco convencionais. Taxado de provocador e radical, um certo “enfant terrible”, Korine joga de acordo com suas próprias regras. Párias sociais, imagens de revirar o estômago, infâncias disfuncionais, desordens mentais e pobreza são temas comuns às suas narrativas, normalmente não-lineares e bastante experimentais, compostas por fragmentos de eventos altamente simbólicos ou metafóricos. Ele compara o seu modo de criação a um álbum de fotos pessoais: separadas, cada figura é estranha, fora de contexto, mas se compiladas em um volume e apresentadas juntas se tornam capazes de oferecer uma narrativa.

Trash Humpers é uma obra exemplar do estilo do cineasta: uma realização audaciosa e autêntica, na contramão da linguagem do cinema convencional. A concepção da obra, no entanto, partiu de situações singelas. Enquanto passeava à noite com seu cachorro em uma viela atrás de sua casa em Nashville, Tennessee, Korine encontrou um monte de latas de lixo reviradas e jogadas no chão. Aquele cenário, que parecia uma zona de guerra, iluminado pelos postes de luz, chamou sua atenção pela dramaticidade; tudo começou a sugerir formas humanas, abusadas e isoladas. Então se lembrou de quando era criança e costumava ver um grupo de velhos sujos perambulando pela rua, bebendo, dançando e urinando pelas janelas das casas alheias. O resultado? “Desenterrado da paisagem escondida do pesadelo americano, Trash Humpers acompanha um pequeno grupo de mascarados parasitando através das sombras e margens de um universo desconhecido. Cruelmente documentado pelos integrantes, seguimos as ações chocantes desses verdadeiros sociopatas como nunca visto antes. Habitando um mundo de sonhos partidos e além dos limites da moralidade, eles se chocam com uma América dividida. No limite de uma ode ao vandalismo, este é um novo tipo de horror, palpável e cru”, diz um dos textos oficiais do longa.

Os personagens de Trash Humpers não apenas protagonizam atos grotescos, como exibem uma total satisfação em fazê-lo, numa inusitada celebração à destruição. Entre tantas bizarrices (o nome sugere uma: hump = fazer sexo com alguém ou alguma coisa), eles dançam, cantam e repetem frases sem sentido, compondo uma improvável poesia saída do caos. Paradoxalmente, há quase um otimismo, uma doçura naqueles seres humanos vivendo no seu próprio e idealizado mundo. Korine arrisca dizer que muita gente pode até sentir inveja da liberdade que aquelas figuras experimentam, e completa (em uma ótima entrevista que você pode ler aqui): “Eu sinto de verdade um profundo amor e admiração por esses personagens. Não pelo que eles fazem, mas por como o fazem. É uma ode ao vandalismo e à criatividade da força destrutiva. Às vezes há uma real beleza em explodir coisas, em despedaçar e queimar. Pode ser tão esclarecedor como construir um objeto. Eu quis que esses personagens fossem quase uns artistas – artistas do mal”.

Cansado de toda a burocracia envolvida em Mister Lonely (2007), seu filme anterior e o mais caro de sua carreira até agora (foi produzido com US$ 8,2 milhões e contou com roteiro de seu irmão, Avi), Korine quis trabalhar o mais rápido quanto fosse possível. Dessa forma, Trash Humpers foi filmado em cerca de duas semanas, com orçamento beirando o zero e partindo apenas de algumas anotações e testes com fotografias. A rotina de gravação não envolveu mais do que o atrevimento da equipe: o grupo de falsos velhos – incluindo um incógnito Korine – apenas saiu pelas ruas, dormindo embaixo de pontes e fazendo todas as demências nas quais podiam pensar, enquanto documentavam uns aos outros. “Foi bastante intenso, porque não parava nunca, era constante”, descreve o diretor, após esclarecer que não se preocupou com as cenas, com o som ou as cores durante o processo – mas sim em produzir algo real, “orgânico”, que fizesse sentido para ele mesmo.

O longa foi filmado em VHS, com câmera na mão e sem roteiro, combinando com a premissa peculiar e a espontaneidade das representações. A ideia era que o filme parecesse uma velha e maluca fita de vídeo-cassete que cai na mão de alguém por motivos inquestionáveis e surreais, como que encontrada por acaso enterrada em algum buraco, ou em um sótão abarrotado. “Eu cresci na era do VHS. Lembro de ganhar minha primeira câmera e reaproveitar a fita várias vezes. Havia algo de estranho em ficar gravando por cima e por cima, e pequenas imagens e momentos continuarem voltando por um segundo ou dois quando você assistia. Havia uma estranha beleza no analógico. Você quase tinha que forçar os olhos para ver as coisas através das imagens granuladas e borradas. Há algo de sinistro nisso tudo”, diz Korine, com certeza bem sucedido na intenção. Em certo ponto das filmagens ele pensou, inclusive, em fazer um monte de cópias e deixá-las nas calçadas em frente a restaurantes, delegacias de polícia e em outros lugares comuns para acompanhar o que aconteceria. Curiosamente, a aura “suja” e doméstica do VHS, reforçada com falhas na imagem e informações em playback acrescentadas na edição, rendeu ao filme o prêmio máximo do proeminente Festival Internacional de Documentários de Copenhagen de 2009, mesmo se tratando de uma ficção – e também estará na edição 2010 do festival South By SouthWest.

Pode-se dizer que o contraponto de Trash Humpers – o poético versus o grotesco – se estende a toda a carreira de Harmony Korine. Ou se ama, ou se odeia. Na opinião do artista, no entanto, ele não faz nada além de capturar a cara dos Estados Unidos e os seus moradores, seus estacionamentos vazios e seus postes de luz iluminando os sofás abandonados no meio da rua. Para ele a arte é a voz de um homem, é uma ideia, um ponto de vista; e quem não enxergar da mesma forma, que vire as costas. Sejam filmados em VHS ou DVD, sejam lançados oficialmente ou apenas caiam na rede, sejam vistos na telona do cinema ou na telinha do computador, os filmes de Harmony Korine nunca passam despercebidos.

Andréa Azambuja


Um pouco da vida e da carreira do diretor
:

Harmony Korine nasceu em Bolinas, Califórnia, em 1943. Ele cresceu em Nashville como um adolescente solitário, até se mudar para a casa da avó em Nova York, onde peregrinava pelos cinemas cult de Manhattan em busca de clássicos da sétima arte (entre as preferências estavam Cassavetes, Herzog, Godard e Alan Clarke).

Sua carreira cinematográfica começou aos 19 anos, embalada por um skate no Washington Square Park. Entre uma e outra manobra arriscada com os amigos, Korine avistou o (clássico) fotógrafo Larry Clark e entregou a ele um roteiro que tinha em seu bolso, sobre um pai que levava o filho para ver uma prostituta. Impressionado, Clark pediu que ele reescrevesse o script, ou que fizesse um novo, contando um pouco de sua rotina. Três semanas depois estava pronto o roteiro de Kids, uma amostra de 24h da vida cheia de sexo e drogas de um grupo de adolescentes de Manhattan. Estrelado por Leo Fitzpatrick, Chloe Sevigny e Rosário Dawson (as últimas nos seus primeiros papeis no cinema), Kids foi definido pela crítica norte-americana como “uma brilhante chamada para a América acordar”, ao mesmo tempo em que foi taxado de representar uma descarada promoção da exploração juvenil. Mesmo controversa, a obra estabeleceu Korine como uma forte e potencial figura do cinema underground emergente nos EUA, além de botá-lo em contato com o produtor Cary Woods, que viria a patrocinar sua estreia na direção: Gummo, produzido com US$ 1 milhão.

Gummo foi lançado em 1997 e mostra a vida de dois amigos na remota cidade de Xênia, Ohio, devastada por um tornado na década de 70. Pela narrativa fragmentada (foi montado com fotos Polaroid, filmes em Super 8 e 35mm), de trilha sonora eclética (junta Madonna a death metal e Roy Orbison) e povoada por atores iniciantes, Korine foi declarado “gênio” por muitos críticos consagrados em todo o mundo. Fora isso, recebeu cartas pessoais dos “fãs” Bernardo Bertolucci e Werner Herzog (hoje seu colaborador), que contou ao New York Times: “Quando eu vi um pedaço de bacon frito grudado na parede do banheiro em Gummo, aquilo me tirou da cadeira. Korine é uma voz muito clara de uma geração de cineastas que está tomando uma nova posição. Não vai dominar o mundo, mas e daí?”.

E esse foi só o começo. Desde então, Harmony Korine trabalhou em diversos projetos, que incluem The Diary of Anne Frank (Part II) e Fight Harm (pelo qual quebrou diversas costelas e um dedo), foi convidado a participar do Dogma 95 – movimento pelo qual dirigiu Julian Donkey Boy -, fez o roteiro de Ken Park e assinou Mister Lonely. Isso sem contar as investidas fora do cinema: dirigiu videoclipes para bandas como Sonic Youth e Cat Power, escreveu uma música para Bjork, lançou cd e publicou livros de fotografias e textos, entre outras façanhas das quais você pode ler mais aqui.

Harmony Korine vem se afirmando como um dos mais controversos e independentes cineastas da contemporaneidade. Suas realizações têm, acima de tudo, personalidade, e é disso que o cinema precisa. Com boas ideias e iniciativa, o barco navega por conta própria. Prova disso é Trash Humpers, filme low budget que abre com categoria a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema. Popular apenas em alguns festivais no exterior e nas telas de raros computadores, ele é emblemático do motivo desse festival: proporcionar uma reflexão sobre as vias paralelas da informação e embalar com inovação o circuito off samba desse verão.

Curiosidades:

O pai de Korine, Sol, produzia documentários nos anos 70 e ensinou o filho a manejar sua primeira câmera.

Ele estudou Inglês na Tisch School of the Arts, na New York University, por um semestre, mas largou a faculdade para se tornar um dançarino profissional de sapateado.

Mesmo depois de ter lançado Gummo, dançou sapateado na rua em troca de trocados.

Passou anos cortando grama pelo dinheiro.

Mudou seu nome por um breve período para Laird Henn. A troca não vingou, mas está documentada em uma música da banda Sun City Girls que contém uma gravação deixada por ele na secretária eletrônica de um dos integrantes apresentando-se como Laird Henn.

Tem uma filha com a esposa Rachel Korine, Lefty Bell Korine.

Em 1999, revelou para a revista Dazed & Confused os seus dez filmes preferidos, em uma lista liderada por Pixote: A Lei do Mais Fraco, do argentino residente no Brasil Hector Babenco. A lista segue assim:

2- Badlands e
3- Days of Heaven, de Terrence Malick
4- Fat City, de John Huston
5- Stroszeck, de Werner Herzog
6- The Killing of a Chinese Bookie e
7- A Woman Under the Influence, de Jonh Cassavetes
8- McCabe and Mrs. Miller, de Robert Altman
9 – Out of the Blue, de Dennis Hopper
8- Hail Mary, de Jean-Luc Godard

Antes de Mister Lonely, Korine escreveu sobre um porco chamado Trotsky, em uma história que se passaria durante uma guerra racial na Flórida. No filme, um garoto iria selar o porco e botar adesivos em suas patas, para poder escalar paredes e jogar bombas molotov do alto. Korine declarou que essa seria sua obra de arte, mas o roteiro foi queimado e nunca pôde ser realizado, apesar dos esforços do criador: ele gastou mais de U$$ 11.000 para tentar recuperá-lo de seu velho computador, resgatando, porém, apenas uma frase do texto.

Antes da estreia oficial de Trash Humpers, no Festival de Toronto de 2009, Korine avisou a audiência que se alguém tinha a tendência de sair no meio de filmes, que fizesse aquilo naquele momento.

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Trash Humpers

Elenco:

Rachel Korine
Brian Kotzue
Travis Nicholson
Harmony Korine
Chris Gantry
Kevin Gutherie
Paige Spain
Dave Cloud
Chris Crofton
Charles Ezell

Equipe Técnica:

Direção: Harmony Korine
Produção Executiva: Agnes B. e Charles- Marie Anthonios
Produção: Amina Dasmal e Robin Fox
Edição: Leo Scott e Michael Carter
Som: Alex Altman
Pós-Produção: Ground Zero
Pós-som: Digital Audio Post

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Nowhere – filme de Gregg Araki finalmente em algum lugar
março 4, 2010, 6:50 pm
Filed under: Filmes em exibição, Zona Livre | Tags: ,

 82min, 1997, cor, 35mm (exibição em DVD)

14/02, 20h, Sala 01
17/02, 19h, Sala 02

“Representante da cultura e costumes dos anos 90, o longa do americano Gregg Araki nos proporciona rever – e reviver – a problemática efervescência e contraverção daqueles jovens e suas perturbações, sejam rasas ou não, a respeito do que havia de novo para eles naquele momento. Diretor conhecido pelo seu mais premiado filme Mysterious Skin, nos mostra neste seu menos conhecido trabalho aqui no Brasil, um universo ácido, sexualmente ativo e bastante distante do conceito de realidade” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre  

  

Jovens bonitos, ansiosos e confusos em busca de amor e diversão. Podia ser um episódio de Barrados no Baile… só que numa viagem de ácido. Foi assim que o escritor e diretor Gregg Araki definiu Nowhere, retrato da juventude americana alienada e problemática dos anos 90, que agora o Centro Cultural Banco do Brasil  e o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) trazem ao Rio de Janeiro, na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema. O filme será exibido nos dias 14, às 20h, e 17, às 19h.  

Gregg Araki (imdb / myspace conquistou reputação internacional com seus filmes independentes sobre os costumes e a cultura da juventude dos anos 90. Americano de Los Angeles, Califórnia, ele é um nome seminal do New Queer Cinema, gênero de filmes radicais na forma de lidar com a efervescência cultural, política e identidade gays do começo daquela década.  Nowhere faz parte dessa categoria e encerra um ciclo conhecido como “Teenage Apocalypse Trilogy”, formada por Totally F***Ed Up (1993), crônica das vidas disfuncionais de seis adolescentes homossexuais – indicado pelo Los Angeles Times como um dos melhores filmes daquele ano – e The Doom Generation (1995), comédia negra que transborda violência, simbolismo cultural e erotismo. Por sua vez, Nowhere lançado em 1997, acompanha um dia na vida de um grupo de amigos em torno dos 18 anos que sofrem com os dilemas inerentes à juventude, em um contexto que envolve drogas, popularidade, desordens alimentares, promiscuidade, agressividade, estupro e suicídio. 

Representado pelo ator James Durval, muso de Araki e protagonista também dos outros filmes da trilogia, Dark Smiths é um estudante de cinema obcecado pelo fim do mundo e por achar o seu verdadeiro e eterno amor. Dark precisa, mas raramente recebe o apoio emocional de sua namorada, Mel (Rachel True), que também está envolvida com a amiga Lucifer (Kathleen Robertson). Incentivado pela falta de compromisso de Mel, Dark começa a sentir atração por outras pessoas, como o angelical Montgomery (Nathon Bexton) e a dupla de dominatrix Kriss (Chiara Mastroianni) e Kozy (Debi Mazar). Melhor amigo de Dark, Cowboy (Guillermo Diaz) também tem seus problemas, já que seu namorado e companheiro de banda Bart (Jeremy Jordan) anda abusando das drogas e passa a maior parte do tempo com o traficante Handjob (Alan Boyce). 

 Enquanto isso, Dingbat (Christina Applegate), a inteligente da turma, gosta de Ducky (Scott Caan), que por sua vez quer Alyssa (Jordan Ladd), que prefere Elvis (Thyme Lewis), com quem protagoniza cenas calientes de sexo. O grupo inclui ainda Egg (Sarah Lassez), em um rolo inesperado com um famoso ídolo teen (jason Simmons), e dois casais felizes: o irmão menor de Mel, Zero (Joshua Gibran Mayweather), e sua namorada, Zoe (Mena Survari), e a sexual Lilith (Herather Grahan) e seu par, Shad (Ryan Phillip), o irmão gêmeo de Alyssa. Em uma série de fatos que têm largada na cafeteria clássica da turma, o dia dessa teia de amigos voa numa montanha russa de sexo, drogas alucinógenas, desentendimentos românticos e violência, encerrando-se com acontecimentos pesados em uma selvagem festa na casa do descolado Jujyfruit, vivido por Gibby Haynes, figura popular também na vida real, como líder da banda Butthole Surfers.

Esta poderia realmente ser a sinopse de qualquer história sobre jovens. O que faz a diferença é o distinto estilo do diretor, que expressa esse universo ácido e sexualmente ativo de uma maneira muito visual – e é aí que entram as drogas alucinógenas. Dark e seus amigos passam o tempo com distrações comuns a muitos adolescentes: fazendo sexo, usando drogas, indo a festas… e também assistindo a abduções alienígenas. Fatos psicodélicos como esse não são estranhos no universo pop de Araki. Assim como muitos de seus títulos, Nowhere é um filme pop, desde as cenas inusitadas, coloridas e alucinógenas que o compõem à escolha do elenco, formado por sobreviventes de séries de TV norte-americanas como Melrose Place e Barrados no Baile (a exemplo de Kathleen Robertson e Shannen Doherty) e por astros de Hollywood (como Ryan Phillip e Cristina Applegate). 

Araki explica o porquê da afeição: “Sou basicamente um produto da cultura pop e a acho excitante. Gosto do fato de que está sempre mudando, que é como uma coisa viva, que
respira”. Quanto às caras conhecidas do elenco, “todos esses rostos ocupam um espaço no seu imaginário. Gostando ou não, eles são parte da sua vida. Eu quis que até os personagens secundários reforçassem a qualidade alucinógena do filme, como quando você dorme e algum deles aparece no seu sonho”
(
leia mais aqui, fazendo o download dos arquivos). 

Outra referência pop presente nas realizações de Araki é a trilha sonora, normalmente tirada da sua coleção pessoal, reforçada no período em que trabalhou como crítico musical do L.A. Weekly. Entre notas variadas, as bandas do chamado estilo shoegazer (rock alternativo que emergiu no Reino Unido nos anos 80, quando os  músicos ficavam relativamente parados em suas performances, numa posição introspectiva como se estivessem olhando para os próprios pés) são as que predominam. O gênero aparece em todas as realizações do diretor, sendo bastante sensível em Living End, filme batizado com o nome de uma das músicas da banda Jesus and Mary Chain, e em Nowhere, intitulado com o nome de uma canção da banda Ride (youtube / myspace). No último, a relação do cineasta com a música também reflete-se nas paredes e no chão do quarto de Bart, em letras da música Lukewarm, da banda Babyland. 

As filmagens de Nowhere foram feitas em Los Angeles, em 1995, durante cinco semanas quentes do verão – clima que até pode ser sentido no começo da história, mas somente até as coisas se tornarem mais complicadas. Agora, com o frescor do ar condicionado do CCBB, Nowhere pula dos fóruns da internet para a telona do CCBB no Rio, mostrando os dilemas da efervescência e da contravenção dos jovens dos anos 90 que, como comentaram os curadores do festival, muito assemelham-se às necessidades e dúvidas dos jovens de hoje, escondidos atrás de seus computadores.
 Andréa Azambuja

  

+ Sobre o diretor

Gregg Araki nasceu em 17 de dezembro de 1959 em Los Angeles e foi criado em Santa Bárbara, no Sul da Califórnia. Formado na USC School of Cinema- Television, sua estreia no cinema se deu com Three Bewildered People in the Night, em 1987. Dois anos depois, lançou Long Week (o’ Despaire), produzido, dirigido e editado por ele, conquistando fama na cena independente. Seu título mais famoso é Mysterious Skin (2005), aclamado pela crítica e pelo público.

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 Prêmios

  • Festival Internacional de Cinema de Rotterdam (2005) – Prêmio MovieZone, por Mysterious Skin
  • Lesbian & Gay Festival Internacional de São Francisco (2005) -Prêmio Frameline
  • Festival Internacional de Cinema de Seattle (2005) -Prêmio Golden Space Needle (Melhor Diretor), por Mysterious Skin (2004)
  • Festival Internacional de Cinema de Bergen (2004) – Prêmio do Júri, por Mysterious Skin
  • Festival Internacional de Cinema de Brisbane (2004) -Prêmio Interfaith, por Mysterious Skin
  • Premiação da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles (1989) – Prêmio Independente/Filme e Vídeo Experimental, por The Long Weekend (O’Despair)
  • Festival Internacional de Cinema de Locarno (1987) – Prêmio Ernest Artaria, por Three Bewildered People in the Night 

 Filmografia completa/ direção 

Kaboom (2010) – em pós produção. Ficção científica sobre o despertar sexual de um grupo de adolescentes.

Smiley Face (2007) – comédia feita por Araki para suceder o sério e pesado Mysterios Skin. Tem sido mencionado pela crítica de cinema americana como um forte candidato a se tornar um clássico cult.

Mysterious Skin (2004) – baseado em um romance de Scott Heim, conta a história de dois adolescentes abusados sexualmente na infância que lidam de forma diferente com os fatos do passado. Mysterious Skin foi aclamado pela crítica e recebeu uma ótima reação do público, além de mais de cinco prêmios em festivais internacionais de cinema.

This Is How the World Ends (2000) (TV) – inicialmente programada para ser produzida com $1.5 milhões, esta série para a rede MTV foi cancelada em função de orçamento. Araki acabou fazendo o piloto com o valor disponível na época, $700,00, mas o programa nunca foi lançado, estando disponível apenas na internet.

Splendor (1999) –uma mulher, vivida por Kathleen Robertson, não pode escolher entre dois homens (Johnathon Schaech e Matt Keeslar) e assim decide viver com os dois. Hailed as the director’s most optimistic film to date, it made its premiere at the 1999 Sundance Film Festival . Definido como o filme mais otimistas do diretor até à data, estreiou no Sundance Film Festival e tem a fama de ter sido  uma resposta à controvérsia em torno de sua relação com Robertson, assim como uma homenagem às comédias screwball dos anos de 1940 e 50.

Nowhere (1997)

The Doom Generation (1995) – Segundo filme da Teenage Aphocalypse Trilogy. Disponível em DVD e VHS em duas versões diferentes, devido às diversas cenas de sexo e ao violento clímax da história.

Totally F***ed Up (1993) – primeiro título da trilogia, explora a depressão juvenil e a homophobia.

The Living End (1992) – um filme de estrada sobre dois homens HIV positivos cujos caminhos se cruzam em um fatídico dia. Estreando no Sundance Film Festival, foi nominado para o Grande Prêmio do Júri e conta com a presença de Mary Woronov, que aparece em diversos dos filmes undergrounds de Andy Warhol.

The Long Weekend (O’Despair) (1989) – produzido, dirigido, escrito, fotografado e editado por Araki, foi o filme com o qual começou a fazer reputação no circuito cinematográfico independente. Envolve um grupo de recém formados inseguros quanto ao seu futuro em uma noite de bebedeira.

Three Bewildered People in the Night (1987) – filme de estreia feito com um orçamento de $5,000 e câmera simples. Mostra o romance entre um artista de vídeos, sua amante e o amigo gay dela.

 NOWHERE 

Elenco

James Duval – Dark Smith
Rachel True – Mel
Kathleen Robertson – Lucifer
Nathan Bexton – Montgomery
Chiara Mastroianni – Kriss
Debi Mazar – Kozy
Joshua Gibran Mayweather – Zero
Jordan Ladd – Alyssa
Christina Applegate – Dingbat
Sarah Lassez – Egg / Polly
Guillermo Díaz – Cowboy (as Guillermo Diaz)
Jeremy Jordan – Bart Sighvatssohn
Alan Boyce – Handjob
Jaason Simmons – The Teen Idol
Ryan Phillippe – Shad
Heather Graham – Lilith
Scott Caan -Ducky
Thyme Lewis – Elvis
Mena Suvari – Zoe
Beverly D’Angelo – Dark’s Mom
Charlotte Rae – Fortune Teller
Denise Richards – Jana
Teresa Hill – Shannon
Kevin Light – Noah
Gibby Haynes –  Jujyfruit
 
Equipe

Escritor, roteirista, diretor e editor: Gregg Araki
Cinematografia: Arturo Smith
Produtores: Andrea Sperling, Greg Araki
Produtores Executivos: Nicole Arbib, Pascal Caucheteux, Gregoire Sorlat, Ilene Staple
Figurino: Sara Jane Slotnick
Design de Produção: Patti Podesta
Diretor de Fotografia: Arturo Smith
 
Produtoras

Blurco
Desperate Pictures
Union Générale Cinématographique (UGC)
Why Not Productions
 
Distribuidores

Atlantis Entertainment (1998) (Czechoslovakia) (theatrical)
Asso Film (video)
Cecchi Gori Group
Fine Line Features
 
Efeitos Especiais

Michael Burnett Productions Inc.

 
  


ONE NIGHT IN ONE CITY, DE JAN BALEJ
março 4, 2010, 5:00 pm
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70min, 2007, cor, 35mm (exibição em DVD)

12/02, 20h, Sala 01
13/02, 18h, Sala 01

“Há muitas formas de retratar a sociedade contemporânea e suas excentricidades. A escolhida pelo diretor Jan Balej talvez não tenha sido a mais fácil e rápida de se fazer, mas com certeza leva a algo completamente novo. Esta animação em stop motion apresenta personagens bizarros que dividem o mesmo prédio, criando sketches em que todas as situações se passam na mesma noite. Um projeto da República Tcheca que demorou dez anos para ser finalizado e que traz uma visão única de mundo graças a uma direção de arte incrível” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

O que de mais inusitado pode acontecer em uma sombria cidade em uma noite? É isto que você irá descobrir com a animação em stop motion One Night in One City, do diretor Jan Balej, um dos maiores nomes da animação na República Tcheca. O filme chega à tela de cinema do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro no próximo dia 12, às 20h, na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, realização do CCBB e do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN). Outra sessão acontece dia 13, às 18h.


Entre outros acontecimentos, você irá encontrar uma esquisita criatura que costura orelhas alheias em sua própria cabeça, acompanhará a estranha amizade entre uma velha árvore de maçã e um peixe que assume inúmeras formas de acordo com as estações do ano e conhecerá ainda alguém que avista fantasmas se distraindo em cafeterias. Mas isso não é nada: nas escuras ruas de Praga, tudo é possível. Ter fetiche com pavões ou possuir um burro de estimação é rotina, e ser viciado num mix de cocaína com formigas é normal. Até um gênio realizar todos os seus pedidos não é nada assim tão difícil – pelo menos, na mente criativa de Balej. Uma composição de episódios negros e parábolas surreais, One Night in One City é um filme para adultos, que trata de temas como fobias, medos, fantasias e solidão, sem a utilização de diálogos e com muito de humor negro.

Os 70 minutos de duração de One Night in One City levaram seis anos para ser filmados e quase uma década para alcançar o lançamento oficial, em 2007. A produção contou com o maior subsídio dado pelo governo local a uma animação até então, em 1998, valor que pagou um sétimo do gasto total da produção. Um investimento que valeu a pena: o filme foi elogiado tanto pela excelência técnica quanto por possuir um acurado ponto de vista da contemporaneidade. Por conta disso, participou de diversos festivais mundo afora e faturou uma mão de prêmios – entre eles, o Golden Reel do Festival de Cinema de Tiburon, nos EUA, o Czech Lion e ainda o Grand Prix de Lisboa em 2007.

Como em time que está ganhando não se mexe, Balej manteve a parceria com o roteirista Ivan Arsenjev para seu próximo filme: uma adaptação contemporânea da famosa A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, no qual vem trabalhando desde o ano passado. É impossível saber o que Andersen iria achar da sua adorável sereia representando uma deslocada imigrante em uma triste metrópole, mas não é muito arriscado apostar que a maioria irá aprovar. Uma coisa é certa: o governo da República Tcheca confia no talento do diretor e o novo projeto volta a receber o maior subsídio dado a uma animação até hoje pelo país do Leste Europeu.
Andréa Azambuja

Jan Balej *1958

Diretor, arte designer, pedagogo

Membro da Academia Européia de Cinema e da Academia de Cinema e Televisão da República Tcheca

2009 – 2013 – “The Little Fishgirl” – animação baseada em The Little Mermaid, de H. C. Andersen

2008 – “Karlik and Magic Fish” – série de TV na República Tcheca

2007 – Diretor de um estúdio de animação e motion graphics da Academia de Artes, Arquitetura e Design de Praga

2006  “One Night in One City“

2006 – “Mr. Fin and Mr. Twig”

2006 – “Fimfarum 2” (junto com os diretores Vlasta Pospisilova,  Bretislav Pojar and Aurel Klimt) – seleção oficial do Festival de Berlim 2006; Prêmio máximo do Anifest Trebon 2006; o Czech Lion por melhor direção de arte; European Smiles 2006.

2003 – curta-metragem “Shells”

2000 – curta-metragem “One Night in One City” (roteiro deIvan Arsenjev)

2001 –  13 histórias de dormir para a TV Tcheca: “How does it goes at hippos“

1999-2000 – primeiras 13 histórias de do ciclo

1992-1994 “Tom Thumb“ – ganhador do  The Czech literal fund prize and audience prize no Festival Internacional de Cinema para Crianças de Zlín, Czech Republic

1988 se formou em UMPRUM, Academy of Arts, Architecture and Design in Prague – Estúdio de cinema e televisão gráfica

 

ONE NIGHT IN ONE CITY

Prêmios

  • Portugal – Grand Prix Mostra Lisboa 2007
  • República Tcheca – Anifest Třeboň – Melhor filme
  • EUA – Tiburon International Film Festival The Golden Reel – Melhor Animação
  • Espanha – Animabasauri Prêmio Especial do Júri
  • Romania – Animest – Melhor Animação

Equipe

Direção – Jan BALEJ
Produção – HAFAN film e MAUR film
Escrito por – Jan Balej e Ivan Arsenjev
Música – Tadeáš Věrčák
Som – Zbyněk Mader
Cinematografia – Miloslav Špála
Edição – Magda Sandersová



STINGRAY SAM, DE CORY MCABEE

EUA, 2009, 60 min, p&b e cor, 35mm
(exibição em DVD)

>>>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

27/02, às 19h, Sala 01 + debate ao vivo com o diretor

“Stingray Sam dispensa muitas apresentações. Criado sob influência direta do costume que criou-se de ver filmes no youtube divididos em trechos de 10 minutos, e em ipods e suas pequenas janelas, relacionado diretamente com a continuidade da existência do 35mm, Cory McAbee consegue dar um grande passo à frente nesse seu segundo longa metragem, perseguindo e aprimorando suas valências e surpreendentes habilidades que demonstrou no seu filme anterior (leia sobre American Astronaut), mas se reinventando de maneira muito sagaz, inclusive sobre o próprio fato de fazer ficção científica, criando um dos filmes mais relevantes dessa mostra, na nossa opinião. Stingray Sam foi lançado em 35mm no importantíssimo festival de Sundance nos EUA, mas tem sua distribuição feita simultaneamente, não só por outros renomados festivais internacionais e salas de cinema, mas também para download no site oficial do filme, sendo disponível inclusive em formato para ipods, contendo junto um interessante material adicional sobre o filme com fotos, trilha sonora, making of e etc. Como foi dito antes, a última obra de McAbee dispensa muitas palavras de apresentação. Todas essas informações não seriam relevantes se ele não conseguisse transcender toda essa originalidade de suas idéias e criar um filme que fale por si mesmo. Para nós, ele conseguiu.” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

Um western espacial envolvendo dois personagens, Stingray Sam e seu cúmplice Quasar Kid, na tentativa de salvar uma garota, seqüestrada pelo líder geneticamente concebido de um planeta muito rico. Esquisito? Não quando vem à tona o nome de Cory McAbee, cineasta que a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema tem mais uma vez o prazer de apresentar na tela grande do CCBB do Rio, dessa vez através de Stingray Sam, longa-metragem de 2009.

Inédito no Rio de Janeiro (exibido no Brasil apenas no CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre – CEN de 2009), o filme tem sessão marcada para às 19h do próximo dia 27 e será sucedido de um debate ao vivo com o diretor.

Cory McAbee conquistou uma legião de fãs com a criativa e improvável premissa que mistura cowboys, lasers e coreografias musicais de The American Astronaut, longa-metragem lançado em 2001. Na estreia, realizada no Festival de Sundance daquele ano, críticos de todas as partes lutaram consigo mesmos para atribuir superlativos ao filme e para descrever exatamente o que tinham acabado de assistir, sem entender de que maneira uma mistura tão inusitada podia ser tão formidável. Os elogios foram inúmeros, ecoando especialmente em um ponto: o estilo inovador e inigualável de McAbee. 

The American Astronaut foi realizado com um baixíssimo orçamento, provando como uma ideia realmente original na cabeça pode ser mais importante do que muitas cédulas de dólares no bolso. Em Stingray Sam, o cineasta mantém o mesmo estilo do filme anterior, importando dele a temática principal, justamente com a intenção de executar exatamente a curiosa definição que foi atribuida ao primeiro: um faroeste de ficção científica musical passado no espaço. 


Assim como em The American Astronaut, o filme se passa no espaço, onde os condenados “cowboys” Stingray Sam e seu cúmplice de longa data, Quasar Kid (Crugie), ganham de volta a liberdade em troca de uma missão: resgatar uma menina mantida em cativeiro por um líder concebido geneticamente de um país muito rico. Embalando as venturas e desventuras da dupla, temos novamente muitos números musicais interpretados pela The Billy Nayer Show, a banda liderada por McAbbe na vida real, que também assume o papel de protagonista. Dessa vez, as imagens em preto e branco são intercaladas por planos em coloridos, que dão vida às tiradas engraçadas, aos diálogos bem escritos e às paródias de McAbee.

A grande diferença entre os dois longas-metragens está no formato: Stingray Sam é dividido em seis episódios de dez minutos, que possuem uma seqüência lógica, mas que podem ser assistidos de maneira independente, na tela do ipod, do celular, do youtube, ou onde mais você quiser. São eles: Factory Fugitives, The Forbidden Chromosome, The Famous Carpenter, Corporate Mascot Rehabilitation Program, Shake Your Shackles e Heart of a Stingray.

A ideia partiu de um trabalho anterior realizado pelo diretor para o Festival de Sundance (no qual é figura carimbada desde 1992), que o convidou para dirigir um filme que seria distribuído via celular. Dessa nova proposta audiovisual, surgiu Reno (2007), no qual foram utilizadas técnicas de colagens e fotografias still, tiradas com uma pequena câmera digital (Nikon Coolpix 3100) e tratadas em Photoshop, aliadas a algumas cenas filmadas com uma Sony HDV 1ZU. O sucesso da produção foi tanto, que Cory McAbee foi convidado a rodar o mundo dando palestras sobre filmes produzidos para as pequenas telas e sobre tecnologia.

Cory McAbee supera suas habilidades a cada produção. Com Stingray Sam ele dá um passo à frente, reinventando possibilidades e propondo a reflexão de como os filmes vêm sendo vistos na contemporaneidade, sendo, assim, uma obra emblemática para a Zona Livre, cujo objetivo é trazer à tona a discussão sobre as vias paralelas da informação. O filme, desenvolvido para todos os tipos e tamanhos de tela, não apenas circulou por renomados festivais de cinema, a exemplo do Festival de Sundance, como foi distribuído em larga escala na internet. Ele está disponível para download, inclusive, no site oficial, acompanhado de um interessante material adicional, com fotos, trilha sonora, making of e cenas dos bastidores.

Incluir performances musicais em seus filmes foi o jeito que McAbee encontrou de declarar seu antigo interesse pela música, cultivado desde a adolescência. O desenho, a pintura e o cinema, assim como o talento musical, foram aprendidos naturalmente por ele, autodidata, cuja educação formal só se estendeu até o fim do ensino médio – segundo ele, “finalizado por um ato de caridade”. Pelo estilo descompromissado e inovador, provavelmente um sintoma da liberdade criativa de quem não se molda a normas formais, o cineasta conquistou a reputação de ser uma das vozes mais originais da cena independente de cinema nos últimos anos.

Concebido para ser visto a qualquer hora do dia e em qualquer circunstância, no ônibus, na cama, numa sala de aula, no cabelereiro… Stingray Sam chega agora à sala de cinema do CCBB do Rio de Janeiro, seguido de um debate ao vivo com o diretor, que estará disponível para esclarecer qualquer mistério do seu universo paralelo. Aperto o cinto e descubra esse exemplo inovador, cativante e único do que o cinema pode nos oferecer atualmente.
Andréa Azambuja  

Saiba mais sobre a vida do diretor aqui.


Prêmios
Elenco

Ron Crawford – Old Scientist
Crugie – Quasar Kid
Maura Ruth Hashman – Heaven
David Hyde Pierce – Narrador (voz)
Jessica Jelliffe – The Clerk
Robert Lurie – Cubby
Cory McAbee – Stingray Sam
Willa Vy McAbee – Girl The Carpenter’s Daughter
Caleb Scott – The Artist
Soren Scott – Ed
Frank Stewart – Barnaby
Joshua Taylor – Fredward
Michael Wiener – Smarmy Scientist

Equipe

Produtora – BNS Productions
Direção – Cory McAbee
Direção de Fotografia – Scott Miller
Edição de Som – Karl Derfler
Montador / editor – Andrew Blackwell
Produção – Becky Glupczynski & Bobby Lurie
Roteiro –  Cory McAbee
Trilha sonora original – The Billy Nayer Show



TAXIDERMIA, DE GYÖRGY PÁLFI
fevereiro 26, 2010, 12:20 am
Filed under: Filmes em exibição, Zona Livre | Tags: , ,

Hungria, 90min, 2007, cor, 35mm

>> inédito no Rio

26/02, às 16h, Sala 01
28/02, às 14h, Sala 01


“Conta-se por aí que uma jovem agrediu aos gritos seu namorado, na sua única exibição ocorrida até hoje no Brasil (São Paulo, 2006) após o fim de Taxidermia, segundo longa de György Pálfi. Ela questionava ferozmente o namorado sobre como ele teve coragem de levá-la para ver um filme como aquele. Mitos à parte, este longa húngaro com certeza é um dos filmes mais chocantes e de difícil digestão dos últimos anos. Felizmente estes adjetivos vêm acompanhados da impressionante habilidade do jovem diretor em reproduzir e nos proporcionar a experimentação de sentimentos usualmente escondidos dos nossos olhos e quase sempre represados em outros filmes. Tudo o que temos de mais grotesco, absurdo e desprezível é amplificado e “atirado” sobre a tela com muita destreza. Em diversos momentos remetendo categoricamente ao cinema de David Cronenberg, em sua busca intrépida de questionamentos sobre o corpo humano e sua modificação e mutilação forçadas, György Pálfi faz um cinema de estética apurada e com uma personalidade raríssima, pouco encontrada mesmo nos rincões da internet. Será que teremos a oportunidade de presenciar um novo caso como o da jovem e seu namorado em 2006?” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

Uma comédia negra, um filme de terror ou uma produção artística? É difícil enquadrar Taxidermia, longa-metragem de György Pálfi, em qualquer definição. É fácil dizer, porém, que é uma realização extrema, perturbadora, interessante e extremamente original. Quer tirar as suas conclusões? A Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema dá a chance, nos dias 26 e 28 próximos, às 16h e 14h respectivamente, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro.

György Pálfi é mais um exemplo de um jovem cineasta com muito talento que não tem medo de impor o seu estilo e que não tenta camuflar o seu peculiar modo de enxergar o mundo aderindo a uma linguagem cinematográfica convencional. Já com seu surpreendente longa-metragem de estreia, Hukkle (que a Zona Livre também exibiu no Rio de Janeiro este mês), o diretor chamou atenção pela estética apurada e pelo estilo intrépido. O filme passou por incontáveis festivais internacionais, arrecadando quase 20 prêmios na Europa, na Ásia e nos EUA.

Com Taxidermia não foi diferente. Apesar de conter cenas de difícil digestão, que envolvem escatologia, remoção de órgãos, mutilação e todos os tipos de perversão – tudo envolvendo muita carne, sangue e detalhes bizarros -, o filme foi um sucesso em festivais de cinema no mundo todo e consolidou a fama de Pálfi como um diretor de futuro promissor e, também, bastante controverso.

Em função das imagens surreais e explícitas, o diretor húngaro vem levantando comparações com cineastas como David Cronenberg e Luis Buñuel. Assim como nas produções dos cineastas citados, quem tem estômago fraco ou não gosta de nada fora do convencional provavelmente não irá se interessar pelo longa-metragem de Pálfi lançado em 2006. Por outro lado, quem é chegado em obras diferentes, de personalidade e que apresentam um novo ângulo de enxergar a natureza humana tem em Taxidermia um prato cheio de diversão.


Taxidermia é dividido em três partes distintas, sendo que os dois primeiros segmentos foram inspirados em histórias do escritor Lajos  Parti Nagy, e o terceiro foi escrito por Palfi e sua esposa, Zsofia Ruttkay. Assistindo a uma mistura de surrealismo com fatos históricos, testemunhamos o fim do século XX através dos olhos de três gerações de homens de uma problemática família da Hungria, ligados entre si por motivos recorrentes.

Tudo começa na Segunda Guerra Mundial, quando o simplório soldado Vandel Morosgoványi (Csaba Czene) serve a um cruel tenente em uma fazenda no meio do nada da Hungria. Forçado a viver em uma cabana precária, ele desenvolve uma estranha obsessão sexual pelas filhas e pela mulher de seu superior, o que o dirige a trágicas consequências.  Já neste início, podemos perceber as técnicas de filmagem inovadoras de Pálfi, antecipadas em Hukkle (2002). As fantasias eróticas de Vendel são brilhantemente realizadas, com tomadas inusitadas e de grande força gráfica, como quando o velho bebe a água onde se banharam as meninas ou quando se masturba até que emita chamas de seu corpo. As elaboradas tomadas de câmera são acentuadas, ainda, pela excelente trilha-sonora do DJ de Trip Hop Amon Tobin, nascido no Rio de Janeiro.


De uma relação sexual de Vendel com a esposa corpulenta de seu chefe nasce Kálmán (Gergo Tróscsányi), protagonista do segundo segmento da história. Obeso, ele disputa pela Hungria competições de ingestão de comida, que espera que sejam reconhecidas como um esporte olímpico. Premiado e famoso, o atleta conhece Gizella (Adél Stanczel), uma representante feminina do mesmo tipo modalidade, com quem casa e gera o pequeno Lajos (Mark Bischoff). Através de um design de produção que evoca o kitsch no início dos anos 60 do bloco soviético, Pálfi mostra um mundo onde os massivos competidores são tidos como símbolos sexuais e são festejados por multidões de fãs. Além disso, inventa jargões científicos para o esporte em questão e, prestando uma grande atenção aos detalhes, proporciona um rico e colorido espetáculo aos olhos.


A terceira história, contemporânea, é mais calma, menos maníaca do que as anteriores, mas tão ou mais perturbadora. Lajos é então um quieto taxidermista sem perspectivas no amor. Ele é frustrado à sua maneira como seu avô havia sido décadas antes, porém com uma mente que funciona de uma maneira bem diferente. Dedicado à profissão, quando não está trabalhando ou falhando nas tentativas de levar uma vida normal, Lajos cuida do pai, que alcançou dimensões tão monstruosas que não consegue mais se mover e sair da cadeira em seu claustrofóbico apartamento. Kálmán vive para comer e cuidar de seus três gatos gigantes e não tem nada além de duras palavras para o filho, até que este sucumbe e decide entregar-se a um catártico final.


Apesar de cada episódio funcionar como uma peça individual, Pálfi convida os espectadores a reconhecer seu ritmo visual e textual como um todo, moldando o tom a fim de dar uma unidade à obra. Assim como em Hukkle, desde o princípio sua câmera insaciável passeia numa celebração de possibilidades visuais, unindo indivíduos sem respeito próprio e sem senso comum que experimentam vidas anormais, continuamente revisitando os motivos da bestialidade e da natureza animal dos seres humanos.

Mesmo apresentando todos os tipos de perversão sexual, György Pálfi não tem intenções eróticas em Taxidermia. Pelo contrário, o sexo tende a estar ligado ao grotesco, justamente para destacar a natureza bestial do homem. Apesar das desconfortantes imagens, o filme não é um mero show de horrores ou uma amostra de um cinema vazio feito para chocar; o diretor consegue encontrar a humanidade de suas personagens e, ao invés de simplesmente exibi-los, se esforça para trazer suas histórias à tona.

É compreensível que muita gente se assuste com o estilo cru de Pálfi. No entanto, quem estiver disposto a encarar Taxidermia irá se surpreender com o olhar atento do diretor para o detalhe, em um filme meticulosamente construído. Apesar da premissa e do visual nauseantes, Taxidermia trabalha ao mesmo tempo em um nível visceral e intelectual, constituindo uma engraçada, complexa e, por que não dizer, poética contemplação da natureza animal do homem. Considerando sua produção anterior, parece residir nesta peculiar maneira de explorar a complexidade do ser humano o grande trunfo do diretor – que o CineEsquemaNovo (CEN) e o Centro Cultural Banco do Brasil têm novamente o prazer de apresentar por aqui.
Andréa Azambuja

Elenco

Csaba Czene (Vendel Morosgoványi)
Gergõ Trócsányi (Kálmán Balatony)
Marc Bischoff (Lajos Balatony)
Adél Stanczel (Gizi Aczél)
István Gyuricza (Hadnagy/Young lieutenant)
Piroska Molnár (Hadnagyné /The Lieutenants Wife)
Gábor Máté (Old Kálmán)
Géza Hegedûs D. (Dr. Andor Regõczy)
István Hunyadkürti (Jenõ Bá)
Zoltán Koppány (Béla Miszlényi)

Créditos

Direção – György Pálfi
Roteiro – Zsófia Ruttkay, György Pálfi
Produção – Péter Miskolczi, Gábor Váradi, Gabriele Kranzelbinder, Alexander Dumreicher-Ivanceanu, Alexandre Mallet-Guy, Emilie Georges,
Produtoras – Eurofilm Studio, Amour Fou Filmproduktion, Memento Films Production, La Cinéfacture
Co- Produtora – Arte France Cinema
Baseado nas histórias de Lajos Parti Nagy
Cinematografia – Gergely Pohárnok
Design de Produção – Adrien Asztalos
Música – Amon Tobin, Albert Márkos
Edição – Réka Lemhényi
Som – Tamás Zányi
Figurino – Júlia Patkós
Cenário – Géza Szöllõsi
Elenco –   Attila Réthly
Maquiagem – Hildegard Haide



ALL ABOUT LILY CHOU CHOU, DE SHUNJI IWAI
fevereiro 26, 2010, 12:10 am
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140min, 2001, cor, 35mm
>> inédito no Brasil

26/02, 20h, Sala 01
28/02, 18h, Sala 01

“Aparentemente, o longa japonês dirigido por Shunji Iwai poderia ser só mais um trabalho em meio a tantos outros que a Ásia vem produzindo com destreza nos últimos tempos. Mas não: tanto pela história suficientemente inédita aos nossos olhos quanto pela fotografia precisa, que sabe como não ser exibicionista ou ‘virtuosa’ (sem ser menos surpreendente e tocante nos momentos convenientes), e sem contar a bela trilha sonora, o filme de Iwai soma todos estes fatores de forma fascinante para cativar e potencializar a mesma atmosfera complexa, sensível e envolvente que seus protagonistas habitam ao longo das mais de duas horas de duração” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

 A vida de um adolescente colegial não é nada fácil quando o ato de ir à escola significa estar sujeito à constante humilhação e à violência, e quando as únicas mensagens de conforto encontram-se nas notas musicais de canções melancólicas ou na tela de um computador. É esta realidade que vivem as personagens de All About Lily Chou Chou (2001), filme do diretor japonês Shunji Iwai, que o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e o Centro Cultural do Brasil trazem agora ao Rio de Janeiro, na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema. A primeira exibição do longa-metragem está marcada para o dia 26, às 20h, na Sala 01 do CCBB, e a segunda para 18h do dia 28, na mesma sala.

All About Lily Chou Chou é ambientado em um Japão hostil, que sufoca pela perversa solidão que a cultura cyber individualista pode representar. Contrastando com a brutalidade e com a frieza que permeiam a história, Shunji faz uso de uma fotografia de beleza impecável para narrar os acontecimentos que envolvem dois amigos, que acabam tendo o elo de amizade substituído por uma relação de violência e submissão. Com narrativa não-linear, que vai e volta no tempo, o filme apresenta Yuichi Hasumi (Hayato Ichihara), menino tímido, ridicularizado e humilhado constantemente na escola. Sua vida é um inferno, e a única válvula de escape que encontra é a admiração pela cantora Lily Chou-Chou, cujas músicas, segundo ele acredita, possuem um “éter” que encanta e simboliza tudo que é belo. Sob o nick de “Philia”, Yuchi mantém um grupo de discussão em homenagem à cantora na internet e vive uma existência paralela e solitária cercado pelas paredes de seu quarto, até que encontra “Blue Cat”, com quem passa a trocar angústias e confissões.

Um ano antes, então aos treze anos, quando ainda não conhecia a música de Lily, Yuichi vive ótimos momentos do final da sua infância ao lado do novo amigo Shusuke Hoshimo (Shugo Oshinari), excelente aluno que também é ‘torturado’ por outros garotos.  Em uma viagem de férias, porém, Hoshimo sofre um acidente que não só quase o mata, como muda drasticamente seu comportamento. Logo ele derrota o principal agressor da escola e torna-se o líder manipulador e perigoso de uma gangue. Passa, então, a abusar psicologicamente do ex-amigo, obrigando-o a monitorar os passos de Shiori Tsuda (Yu Aoi), mais uma de suas vítimas, que é forçada por ele a aceitar encontros com homens mais velhos em troca de dinheiro. Completando a rede de adolescentes que conduz o enredo, Yoko Kuno (Ayumi Ito) é uma impressionante pianista que faz sucesso entre os meninos, mas nem por isso deixa de ser alvo de perseguições.

A fragmentação da linguagem adotada pelo diretor Shunji Iwai acentua os dilemas vivenciados pelos personagens da trama. Em um contexto sufocante de violência e solidão, é apenas no mundo virtual, por detrás de nomes falsos, que os jovens conseguem confessar o que os aflige e encontrar algo mais para o presente do que o medo e a insegurança. As postagens dos adolescentes no site LilyPhilia tomam conta da tela no meio o filme, deixando para o espectador a tarefa de descobrir quem está escrevendo sob qual nome, servindo como um adicional para que suas verdadeiras intimidades sejam desnudadas. As frases saídas da Internet não constituem, no entanto, apenas uma técnica narrativa: elas foram a peça-chave para que o projeto saísse do papel e se transformasse neste hipnótico e artístico filme autoral.

Logo que resolveu tocar o projeto, Iwai chamou o compositor e antigo colaborador Takeshi Kobayashi (que assina a trilha sonora da produção) para trabalhar na composição da fictícia cantora Lily e de suas músicas. Ele mergulhou prontamente na tarefa, inspirando-se em pessoas reais para alcançar a essência verdadeira da personagem. Após alguns meses, Lily estava criada, e a história entrava em seus capítulos finais; mas havia algo faltando – “o centro, a identidade do filme, alguma coisa assim”, afirma o diretor. Contrariando os colegas, Iwai começou a reescrever o roteiro, e o início das filmagens foi adiado indefinidamente. Foi ouvindo uma das músicas compostas para Lily que o diretor teve a ideia: “Não precisa ser um filme: pode haver um meio mais adequado para ele”. O projeto, então, se converteu em uma novela interativa para a internet, e que teria as impressões dos usuários integradas ao texto. Iwai construiu, então, um website para a trama, onde passou a postar as primeiras linhas do que viria a se tornar All About Lily Chou-Chou.

Para a sua surpresa, a novela logo virou febre. Sob variados nicknames, Iwai garantiu a evolução da narrativa, respondendo aos posts deixados pelos usuários. Este site logo recebeu as músicas de Lily Chou Chou, assim como foi criada a página oficial da cantora, administrada por uma pessoa chamada Sadie. Tudo, claro, como parte da ficção. Em um certo momento, entretanto, acontece um assassinato no Shibuya Concert Hall, e o website LilyPhilia misteriosamente sai do ar – gerando uma fervorosa manifestação dos internautas, que não sabiam mais o que era verdade ou ficção.

A história começara a tomar forma, e era hora do criador continuar a trama sozinho. Iwai, então, tirou a novela do ar e começou a postar os novos capítulos em uma página pessoal, os quais posteriormente foram publicados em uma revista durante três meses. Neste processo, ele encontrou o que estava faltando no plano inicial e passou a repensá-lo para o cinema. “Escrever uma história com pessoas sem rosto foi a experiência mais excitante que já tive”, declara o diretor, que atualmente trabalha na animação Baton, em parceria com o diretor Ryuhei Kitamura (de Versus e Azumi).

All About Lily Chou-Chou também foi inicialmente concebido para representar a primeira realização de um novo empreendimento chamado Y2K Project. Em 1997, Iwai encontrou-se com o premiado diretor Edward Yang, em Taiwan, e o dois concordaram em trabalhar em conjunto em uma série de filmes. O Y2K iria incluir, ainda, o cineasta de Hong Kong Stanley Kwan e tinha como objetivo colocar abaixo as fronteiras entre as diferentes culturas da Ásia, tendo como fio condutor as mudanças asiáticas no século 21.

Parece que as pretensões do diretor superaram suas expectativas. All About Lily Chou-Chou chamou atenção de diversos festivais de cinema independente, arrecadando prêmios e conquistando uma legião de fãs em fóruns e comunidades de cinema na Internet. O filme, agora, vai adiante e ultrapassa as barreiras entre continentes, chegando à tela grande do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro e representando com propriedade as principais intenções da Zona Livre: proporcionar a reflexão a respeito das vias paralelas de informação e promover a democratização da informação.
Andréa Azambuja

Curiosidades

  • As filmagens de All About Lily Chou-Chou foram feitas com câmera digital 24p; na época, Shunji Iwai foi o primeiro diretor japonês a empregar esta tecnologia, ainda uma recente novidade.
  • Quentin Tarantino usou a música Wounds That Heal (Kaifuku Suru Kizu), da trilha Sonora de All About Lily Chou-Chou, em Kill Bill, na cena em que a noiva vê a coleção de espadas de Hattori Hanzo.
  • A persongem de Lily Chou-Chou foi inspirada na cantora e atriz de Hong Kong Faye Wong. No filme, as canções são interpretadas pela artista japonesa Salyu.
  • Ayumi, que interpreta a personagem Yoko Kuno, ficou obcecada pela obra Arabesque N° 1, de Debussy, e passou semanas treinando piano para que pudesse filmar todas as cenas sem precisar de dublê.
  • Já Debussy escreveu a famosa Children’s Corner Suite (1909) para sua filha, a quem deu o apelido de Chou-Chou.
  • A versão original de All About Lily Cho-Chou tinha 157 minutos, em vez de 146, mas foi queimada e não existe mais. Os onze minutos perdidos eram compostos por intensas tomadas da cena de estupro, por uma seqüência de Yuichi na praia (similar a de Hoshino se afogando) e por uma cena estendida do funeral.

Sobre o diretor

Nascido em 1963 na cidade de Sendai, Japão, Shunji Iwai começou sua carreira dirigindo vídeos e programas musicais de televisão a cabo. Nos anos seguintes, ele escreveu e dirigiu diversos dramas para a televisão, videoclipes e comerciais publicitários, alcançando reputação por seu característico estilo visual. Iwai é considerado um dos artistas japoneses contemporâneos realmente originais; cada uma de suas realizações revela que o diretor possui uma particular excelência técnica e uma delicada emoção, além de ser um impactante contador de histórias. 

Vídeos e fotos
Entrevista sobre New York I Love You
Baton

ALL ABOUT LILY CHOU CHOU

Prêmios

Créditos
Diretor – Shunji Iwai
Produção – Naoki Hashimoto
Produtor executivo – Koko Maeda
Produtora – Rockwell Eyes Inc.
Roteiro – Shunji Iwai
Cinematografia – Noboru Shinoda
Direção de Arte – Noboru Ishida
Música – Takeshi Kobayashi
Direção de Som – Osamu Takizawa
Figurino – Hiromi Shintani

Elenco
Yuichi Hasumi – Hayato Ichihara
Shusuke Hoshino – Shugo Oshinari
Yoko Kuno – Ayumi Ito
Shiori Tsuda – Yu Aoi
Tabito Takao – Takao Ôsawa
Shimabukuro – Miwako Ichikawa
Izumi Hoshiro – Iumi Inamori
Sumika Kanzaki – Kazusa Matsuda
Terawaki Shioske – Ryo Katsuji

Distribuidora
Fortíssimo Films



GLUE, DE ALEXIS DOS SANTOS
fevereiro 25, 2010, 12:35 am
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Argentina, 2006, 110 min, cor, 35mm
>> inédito no Rio de Janeiro

10/02, 20h, Sala 01
11/02, 18h, Sala 01
25/02, 18h, Sala 01

“Mesmo com o relativo acesso que temos a cinematografia Argentina, alguns filmes e diretores acabam passando rapidamente por nossas terras sem que se dê a devida atenção. Glue, do cineasta Alexis dos Santos, merece um destaque, já que traz um cinema jovem, que embora tenha sido bastante explorado nos anos 90, cria direções novas e se abstém de qualquer julgamento sobre as ações do protagonista, criando uma câmera livre, em que a impressão que temos é que o personagem vai se descobrindo ao mesmo momento que vamos descobrindo ele.” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

Uma banda de rock, uma lata de cola e angústia existencial. Dois garotos, uma garota e um turbilhão de hormônios no calor do verão da Patagônia. Assim é Glue, filme do argentino Alexis do Santos sobre as histórias de Lucas, Nacho e Andrea, que agora você vê aqui, com exclusividade, na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, realização do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e do Centro Cultural Banco do Brasil. As sessões estão marcadas para essa quarta-feira, dia 10, às 20h, e para o dia o dia seguinte, 11, às18h.

Alexis dos Santos nasceu em Buenos Aires, em 1974, mas foi criado na Patagônia. Lá ele estudou Arquitetura e Interpretação, até se mudar para Londres, onde estagiou como diretor na Escola Nacional de Cinema e Televisão. Mas agora, em seu primeiro longa-metragem, o cineasta retorna às suas origens, mostrando como é ser um adolescente no meio do nada, realidade que ele muito bem conheceu.

Glue estreou em 2 de fevereiro de 2006 no Festival Internacional de Rotterdam e conquistou diversos prêmios em festivais internacionais de cinema. Drama e comédia fazem parte da história de Lucas (Nahuel Pérez Biscayart), um garoto de 15 anos de idade e em plena fase de ebulição hormonal, que passa o tempo da sua rotina tediosa e foge da conturbada vida familiar assistindo a cenas do cotidiano, andando de bicicleta e ouvindo músicas no seu headphone, assinadas no filme pela banda norte-americana Violent Femmes. Ao lado de Nacho (Nahuel Viale), seu melhor amigo, e Andrea (Inés Efron), uma tímida vizinha, ele encontra a cumplicidade de que necessita, e juntos eles vivenciam as experiências do que é ser um adolescente no meio do nada.

Alexis dos Santos se inspirou em suas próprias lembranças para escrever Glue, construído em um roteiro de apenas 17 páginas, algumas páginas compostas apenas de parágrafos soltos e algumas anotações. A maioria das cenas que o compõem foram improvisadas pelos atores, em atuações que admiram pela alta carga de realidade. Para ajudá-los na construção de seus personagens, Alexis pediu a eles que gravassem seus próprios pensamentos sobre os amigos, suas famílias e a respeito da vida e da morte. Segundo ele, todo o processo, desde as conversas com os jovens às filmagens e à edição, foi algo orgânico, quase como em um documentário, quando não se sabe o que vai acontecer a seguir.

Através de narrações em off em alguns trechos, o desenrolar do filme é intercalado entre momentos de solidão dos personagens, onde demonstram a melancolia e as dúvidas que os consomem, e outros de cumplicidade e descoberta da amizade, contraponto que bem exemplifica a fase de transformações por que passam. Esses traços aproximam a obra de Alexis a outras realizações recentes do cinema latino-americano, como “E tua Mãe Também”, de Alfonso Cuarón, e “Temporada de Patos”, de Fernando Eimbcke, pela realidade e pela atmosfera intimista, em retratos juvenis bastante consistentes.

As filmagens de Glue duraram três semanas e meia, baseadas também em improvisações pela equipe técnica. As imagens, gravadas em DVD e Super 8, dão a impressão de que estamos viajando entre estados da consciência, com movimentos e ângulos que capturam os prazeres e os conflitos da adolescência. Como os curadores da Zona Livre comentaram, a impressão que se tem é de que o personagem vai se descobrindo ao mesmo momento que nós vamos descobrindo ele, através de uma câmera fluida, que passeia enquanto adentra a intimidade de cada um.

Glue ganhou na Argentina o subtítulo “Historia Adolescente en Medio de la Nada” e é, sobretudo, um filme de visões singulares, tanto pela carga pessoal presente no roteiro, como pelas atuações dos atores, que  se valeram de suas próprias experiências para compro os personagens. Mas, além disso, é um filme sobre a linguagem universal da adolescência, e as paixões, e os desapontamentos, e a excitação e as mudanças que a constituem, não interessa aonde ela seja vivida.
Andréa Azambuja

Filmografia do diretor
1997 – Meteoritos (17 min.)
1999 – Axoloti (16 min.)
2001 – Sand (20 min.)
2006 – Glue
2009 – Unmade Beds: Com estreia mundial no Sundance Film Festival, conta a história de Axl e Vera, que acabam se encontrando ao vagarem por Londres enquanto tentam superar seu passado. Axl (Fernando Tielve) quer encontrar seu misterioso pai, de quem não tem notícias desde a infância, em um cotidiano de bebedeiras, festas e relacionamentos nada duradouros. Vera tenta esquecer uma desilusão amorosa, vivendo a frieza e o estranhamento de uma cidade grande. Dando forma a tudo isso, uma trilha sonora ligada ao indie rock, com performances ao vivo e cenas em clubs cinzas e barulhentos.

Entrevista com o diretor

GLUE

Prêmios

Elenco
Nahuel Pérez Biscayart – Lucas
Nahuel Viale – Nacho
Inés Efron – Andrea
Verónica Llinás – Mecha
Héctor Díaz – Freddy
Florencia Braier – Flor
Sonia Stenico – La amante
Los Warnos Band – La banda
Jimena Prieto – Jimena
Griselda Ojeda – Doctora
Rodrigo Espinoza – Alumno Ingles
Flavio Alexis Saddi – Flavio
Astor Escobar – Astor
Ángela Odetto – Informativo
Mariana Dos Santos – Madre de Andrea
Adriana Restucci – Fiesta Madre
Belen Bollini – Fiesta Anfitriona

Equipe
Direção, roteiro, produção e edição: Alexis dos Santos
Direção de Fotografia: Natasha Braier
Produção executiva: Isabel Coixet
Produção: Soledad Gatti-Pascual
Edição de Som: Fernando Soldevilla
Montagem / edição: Ida Bregninge, Leonardo Brzezicki
Direção de arte: Nela Fasce
Figurino: Ana Press

Empresas produtoras
Diablo Films
Bureau, The
Meteoritos

Distribuidores
Picture This! Entertainment (2007) (USA)
Picture This! Entertainment (2007) (Canada)
Filmmuseum Distributie (2006) (Netherlands)
International Film Festival Rotterdam (2006)
Salzgeber & Company Medien (2008) (Alemanha)
Filmfreak Distributie (2007) (Netherlands)
Force Entertainment (2008) (Australia)
Parasol Pictures Releasing (2007) (UK)
Tiger Releases (2007) (Netherlands)