ZONA LIVRE


AMERICAN ASTRONAUT, DE CORY MCABEE

EUA, 90min, 2001, P&B, 35mm
(exibição em DVD)

>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

25/02, às 20h, Sala 01
27/02, às 17h, Sala 01

“Ao lado de Stingray Sam, os dois filmes dirigidos por Cory McAbee são provavelmente os títulos desta mostra que mais facilmente cativam e instigam as pessoas a assisti-lo. Esta empatia é uma qualidade que, indiretamente, exige do diretor cada vez maior destreza em seu desenvolvimento narrativo e cinematográfico, de modo a satisfazer a curiosidade e expectativas do seu público. Este longa do diretor norte-americano consegue trazer à tona a essência, a criatividade e a simplicidade das ficções científicas dos anos 1950 – e até mesmo as precursoras dessa época, como a Metropolis de Fritz Lang em 1927. A perfeita sintonia entre direção, fotografia e som faz com que a obra se desprenda de qualquer limitação que seu orçamento pouco abundante poderia acarretar. Lançado em 2001, American Astronaut passa facilmente a impressão de ter sido feito décadas atrás. Mas acima de tudo, o que interessa é que esta obra nos permite sentir o quanto o cinema ainda é feito de idéias, habilidade e destreza, indiferente de época, tecnologia ou orçamento. Uma ótima notícia para os amantes de ficção científica que ainda não o conhecem.” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

Um semi-autobiográfico filme de faroeste musical passado no espaço em um futuro indeterminado. Não compreendeu a mistura? Pois assim é The American Astronaut, longa-metragem do californiano Cory McAbee, que o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e o Centro Cultural Banco do Brasil trazem ao Rio de Janeiro, na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema.

Para desvendar o mistério que conjuga cowboys, lasers e coreografias musicais, é só aparecer no cinema do CCBB, no próximo dia 25, às 20h, ou no dia 27, às 17h. Além disso, o diretor estará ao vivo na sala de cinema do CCBB na próxima sexta-feira, 27, para esclarecer qualquer curiosidade e bater um papo com a plateia em um debate que será realizado após a exibição de Stingray Sam, sua realização de 2009, marcada para as 19h.


Aí vai uma prévia: além de assinar a direção e o roteiro de American Astronaut, Cory McAbbe também protagoniza a história, na pele de Samuel Curtis, um comerciante interplanetário em um universo onde todos os planetas e quase todas as luas são habitadas.  A missão de Curtis começa com a entrega de um gato em um bar do asteróide Ceres, que sedia uma competição de dança – e onde ele encontra um antigo amigo, Blueberry Pirate. Como pagamento pelo trabalho, Curtis recebe um experimento de clonagem ainda em andamento, que irá criar uma rara criatura: uma menina viva de verdade.

Por sugestão de Pirata, Curtis leva a Real Live Girl para Júpiter, planeta habitado somente por homens, propondo a troca da “garota” (àquela altura, uma pequena caixa) pelo The Boy Who Actually Saw A Woman Breast – um adolescente tratado como realeza devido ao seu único e exótico contato com uma mulher (“era redondo e macio” é tudo que ele diz a respeito da experiência para para a atenta plateia em Júpiter).

Curtis tem a intenção de levar The Boy a Vênus, planeta onde só vivem mulheres, para trocá-lo pelos restos de Johnny R., um homem que passou sua vida servindo como experimento ao povo feminino. Tudo isso para então chegar ao motivo inicial da epopéia: levar o que sobrou de Johnny R. de volta à sua família na Terra, e de quem irá receber uma substancial recompensa. Tudo isso seria simples o bastante se Curtis não fosse perseguido (sem saber) pelo sangüinário assassino Professor Hess – uma figura  enigmática pertencente a seu passado e que adora matar – mas só se não tiver motivo nenhum. Em um sistema solar dominado pelo comércio e pelo perigo (e por números musicais), pode ser que dessa vez o bem prevaleça.

Quando The American Astronaut estreou em Sundance em 2001, críticos de todas as partes lutaram consigo mesmos para atribuir superlativos ao filme e descrever exatamente o que tinham acabado de assistir. Depois de diversas aparições na mostra norte-americana e em um irrestrito número de festivais em todo o mundo, as realizações de Cory McAbee ainda são difíceis de definir. Uma mistura de Alphaville (Jean –Luc Godard), Star Wars e Twin Peaks? Ou um Forbidden Zone nas mãos da dobradinha David Lynch – Ed Wood? A lista é grande, e encontra recorrente ressonância nos filmes do Midnight Movies e nas ficções científicas da década de 50.

O fato é que Cory McAbee construiu seu nome por ser uma das vozes mais originais da cena independente de cinema nos últimos anos. Com The American Astronaut, ele prova mais uma vez como o fator “orçamento” pode não ser tão importante, quando se tem uma ideia realmente criativa e poderosa em mente. Filmado em preto e branco em 35mm, o filme apresenta pinturas animadas para retratar as viagens espaciais, ângulos surreais de filmagem, comentários fora de sequência, ótimas manipulações de luz e sombras e estranhos números musicais, providenciados pela banda The Billy Nayer Show – e liderada por um McAbee cantor. Com tudo isso, o diretor cria a sua própria gravidade, engraçada, criativamente rodada, diferente e altamente entretida e cativante.

The American Astronaut foi baseado nas experiências pessoais de McAbee. A história foi inspirada em um período de três anos quando o cineasta não tinha onde morar e se sustentava trabalhando como segurança em bares e boates e tocando com sua banda. Ele resolveu tornar os acontecimentos parte de uma ficção científica, importando o fator western das suas férias de criança, quando ia para a casa de seus avós no deserto de Nevada. Se por um lado isso pode parecer um projeto de vaidade, baseado em sua vida, escrito, dirigido e musicado por ele, por outro The American Astronaut é mais o reflexo da liberdade de um artista que nunca teve nenhuma formação formal, que ensinou a si mesmo a desenhar, a pintar, a compor, a tocar e a fazer cinema; seu histórico sugere que o que ele realmente intenciona é permitir que sua imaginação se expresse livremente.


Se tivesse entrado em cartaz nos cinemas ao redor do mundo, provavelmente muita gente não iria conseguir entender ou definir as reações que American Astronaut provoca. Com vasta circulação na internet, esse western musical que celebra as ficções científicas e supera seus parâmetros muitas vezes claustrofóbicos chega agora à tela grande de cinema no Rio de Janeiro, numa rara oportunidade de ver o quanto uma mistura excêntrica pode parecer tão certa. Vá ao CCBB e sinta de mente aberta o inusitado mundo do astronauta americano num faroeste estrelar de Cory McAbee, que volta a ser o palco da atenção da mostra com Stingray Sam, em cartaz no dia 27, às 19h – em sessão seguida de debate ao vivo com o diretor.
Andréa Azambuja

Sobre o diretor

Cory McAbee é o mais novo de três filhos de uma família do Norte da Califórnia. Seu pai foi um mecânico; sua mãe, uma professora da pré-escola; e seus avós moravam no deserto de Nevada, para onde ele ia durante as férias de verão. McAbee passou sua adolescência morando com os pais e, por não saber dirigir, gastava os dias fazendo experimentos em pinturas e desenhos. Sua educação formal terminou no Ensino Médio, o qual ele só completou por um ato de caridade; ele nunca leu sequer um livro antes dos 20 e poucos anos.

Aos 20 anos, McAbee conheceu Bobby Lurie na casa de um amigo em comum. Lurie e esse amigo iam montar uma banda e o convidaram para o primeiro ensaio, onde descobriram que nenhum dos integrantes conhecia o mesmo material. McAbee acabou juntando-se a eles como compositor e vocalista, e por 11 meses os garotos fizeram várias performances na Califórnia – até que Lurie rompeu com os companheiros, entre outros motivos, porque o medo de palco de McAbee era algo embaraçoso demais para se presenciar. No mesmo ano, ele comprou uma harpa, aprendeu a tocar e começou a escrever músicas novas.

Cory McAbee foi para São Francisco quando recebeu uma oferta para trabalhar de segurança em uma boate, e por 12 anos exerceu o cargo de chefe de segurança em bares e clubes de striptease no estado. Em 1989, ele e Lurie formaram o grupo The Billy Nayer Show, um ano antes de completar as pinturas de seu primeiro filme (o processo demorou três anos), uma animação chamada Billy Nayer. Em 1991, a dupla gravou a faixa final para a produção, lançada em 1992 no Festival de Sundance, e criou a BNS Productions. Ao longo dos anos seguintes, ele escreveu e dirigiu diversos curtas-metragens, que incluem The Ketchup and Mustard Man e The Mao on The Moon. Como um meio de distribuição independente de seus trabalhos, McAbee e Lurie desenvolveram uma performance ao vivo incorporando a música aos filmes, e The Billy Nayer Chronicles foi apresentado em Sundance em 1995 como o primeiro evento multi-mídia do festival.

Depois que The Billy Nayer Chronicles tinha seguido o seu curso, McAbee largou o emprego e perdeu seu apartamento. Ele viveu sem casa por três anos, período no qual compilou idéias para seu primeiro longa-metragem musical, The American Astronaut. Enquanto se virava pintando rostos de manequins em uma fábrica, ou como chefe de segurança em bares, McAbee escreveu e reescreveu o roteiro de The American Astronaut e compôs músicas para os álbuns do BNS: The Villain That Love Built e Return To Brigadoon.

Ele acabou partindo para Chicago, onde viveu por dois anos e onde o amigo Lurie conseguiu fundos com o co-produtor Joshua Taylor para  The American Astronaut, passando a trabalhar como roteirista, diretor, ator compositor, músico e pintor. O filme foi terminado em 2001, sendo lançado no Festival de Sundance daquele ano.

McAbee foi morar no Brooklyn, em Nova York, no verão de 2001, passando os anos seguintes em turnê com The Billy Nayer Show e escrevendo músicas e roteiros. Em dezembro de 2006, ele foi contratado pelo Festival de Sundance para criar um curta-metragem para distribuição em telefones celulares. Reno foi lançado no festival de 2007, ocasião onde o cineasta pela primeira vez tornou-se o dono de um telefone celular. A produção foi considerada a favorita pelos usuários, e, como resultado, o cineasta foi convidado a falar sobre os filmes produzidos para as pequenas telas e tecnologia em conferências ao redor do mundo, chegando agora ao Rio de Janeiro, na mostra Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema.

THE AMERICAN ASTRONAUT

Elenco

Direção – Cory McAbee
Produção – Bobby Lurie, William “Pinetop” Perkins, Joshua Taylor
Written by Cory McAbee
Cinematografia – W.Mott Hupfel III
Edição – Pete Beaudreau
Distribuição – Artistic License Films

Equipe

Cory McAbee – Samuel Curtis/Silver Miner
Rocco Sisto – Professor Hess
Greg Russell Cook – The Boy Who Actually Saw a Woman’s Breast
James Ransone – Bodysuit
Annie Golden – Cloris
Joshua Taylor – Blueberry Pirate
Tom Aldredge – Old Man
Peter McRobbie – Lee Vilensky
Bill Buell – Eddie
Mark Manley – Henchman #1 (Hey Boy!)
Ned Sublette – Henchman #2 (Hey Boy!)



ZONA LIVRE 2010 – MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA


No contra fluxo do ritmo de Carnaval que se instaura na cidade, o Rio recebe em fevereiro uma mostra de cinema inédita, composta por um panorama de longas-metragens estrangeiros com pouca entrada no Brasil, mas que por outro lado possuem intensa circulação na web. Essa é uma das sugestões para o circuito off samba deste verão: a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, que acontece entre os dias nove e 28 no CCBB Rio por iniciativa do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN).

Confira aqui mesmo no blog o endereço e telefones de contato, a grade de programação e o catálogo completo da mostra para download, impressão ou leitura.

A programação conta com uma maioria de filmes inéditos no Brasil. Ao todo, a mostra traz para o Rio 19 títulos que circularam em festivais mundo afora, mas que terminaram por criar sua reputação e ganhar destaque num circuito paralelo: o da Internet, em fóruns e comunidades de cinema. À relevância de algumas obras, soma-se a saudável transposição desses ‘arquivos’, vindos das redes de cinéfilos na Internet, em ‘filmes’ exibidos em 35mm e DVD, autorizados por seus diretores, na consagrada experiência coletiva da sala de cinema.

Acesse imagens dos filmes em nosso canal no Flickr e assista trailers completos, de todos os filmes da mostra, no canal do festival no You Tube. A seguir, uma síntese da programação:

Intenso fluxo de informações, downloads, copyrights, copylefts e quebras de códigos de zonas de exibição habitam o emaranhado conceitual desta mostra, cujo objetivo é propor uma reflexão sobre a democratização e as vias paralelas da informação. Ao mesmo tempo, a Zona Livre também aborda o inevitável e permanente processo de troca de telas a que a imagem é submetida hoje em dia, neste caso do computador para a sala de cinema do CCBB-RJ.

Dentro desta idéia, alguns diretores com filmes presentes na Zona Livre participarão de debates online com o público do CCBB, via Skype: de diferentes partes do mundo, eles estarão em tempo real na sala de cinema conversando com os espectadores sobre suas obras. Por outro lado, o diretor norte-americano Cory McAbee estará no Rio de Janeiro pessoalmente, “offline”, para um debate com público na semana final da mostra.

A mostra Zona Livre surgiu em Porto Alegre, em outubro passado, dentro da programação internacional da edição 2009 do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre. Na curadoria convidada pelos organizadores do festival para o projeto, dois jovens que representam a novíssima geração de produtores gaúchos plugados aos novos meios: Davi Pretto e Bruno Carboni, da Tokyo Filmes. A experiência bem-sucedida no sul, durante a sexta edição do CineEsquemaNovo, chega agora a outros centros com uma programação consistente para os cinéfilos de plantão em pleno fevereiro.

Todos os filmes da mostra receberão reportagens especiais aqui no blog. No catálogo, você confere mais informações sobre todos os títulos. Confira aqui a lista dos longas em exibição:

All About Lily Chou Chou, de Shunji Iwai (Japão)
>> inédito no Brasil

American Astronaut, de Cory McAbee (EUA)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Black Night, de Olivier Smolders (Bélgica)
>> inédito no Brasil

Daytime Drinking, de Young-Seok Noh (Coréia do Sul)
>> inédito no Brasil

Ex-Drummer, de Koen Mortier (Bélgica)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Glue, de Alexis dos Santos (Argentina / Reino Unido)
>> inédito no Rio de Janeiro

Good Dick, de Marianna Palka (EUA)
>> inédito no Brasil

Gozu, de Takashi Miike (Japão)
>> inédito no Rio

Hukkle, de György Pálfi (Hungria)

Hunger, de Steve McQueen (Reino Unido / Irlanda)
>> inédito no Rio e SP

Instrument, de Jem Cohen (EUA)
>> inédito no Rio

Man from Earth, de Richard Schenkman (EUA)

Moonlighting, de Jerzy Skolimowski (Reino Unido)
>> inédito no Rio

Nowhere, de Gregg Araki (EUA)

One night in one City, de Jan Balej (República Tcheca)

Sangre, de Amat Escalante (México)
>> inédito no Rio

Stingray Sam, de Cory McAbee (EUA)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Taxidermia, de György Pálfi (Hungria)
>> inédito no Rio

Trash Humpers, de Harmony Korine (EUA)
>> inédito no Brasil