ZONA LIVRE


Gozu, de Takashi Miike
fevereiro 16, 2010, 2:14 am
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Japão, 130min, 2003, cor, vídeo
>> inédito no Rio

17/02, 20h, Sala 01
18/02, 18h, Sala 02


“Takashi Miike é um dos cineastas mais produtivos de todos os tempos: dos anos 1990 até agora, são cerca de 80 filmes na bagagem. Seu trabalho raramente é lançado ou exibido em mostras no Brasil, fazendo com que a internet se torne o melhor meio a variedade da sua arte. Gozu, a exemplo de grande parte da sua obra, trata sobre a máfia japonesa. Mas o que mais chama a atenção neste filme é o surrealismo acrescentado à história, onde o protagonista está tão positivamente perdido quanto aqueles que o assistem. Miike deixa um pouco de lado neste filme a sua usual violência, mas cria cenas que, dificilmente, irão existir em outros filmes que não nos seus.” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores Zona Livre

Quem gosta dos universos de David Lynch e David Cronenberg, repletos de acontecimentos que desafiam explicações racionais e de cenas impactantes, certamente irá se interessar pelo filme que a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema traz dessa vez com exclusividade ao Rio de Janeiro: Gozu, do diretor japonês Takashi Miike. A oportunidade rara de ver na tela do cinema o estilo criativo de Miike, normalmente com circulação restrita à internet, está marcada para às 20h do próximo dia 17, na Sala 01 do Centro Cultural do Banco do Brasil, e para o dia18/02, 18h, na Sala 02.

Mesmo possuindo diferenças que o distanciam dos diretores citados, Miike apresenta diversos aspectos em sua filmografia que validam a analogia, em especial a fascinação por representações do subconsciente, a liberdade de limitações estruturais e a quebra de tabus sexuais. Assim como os outros cineastas, sem a necessidade de fornecer explicações lógicas para todos os acontecimentos, Miike, quando quer, se permite adentrar o mais puro surrealismo para contar suas histórias, normalmente inventivas, liberais e delirantes, apesar de conseguirem sustentar uma narrativa “lógica”. A exploração das relações familiares e o grande uso violência são marcas carimbadas nas realizações do diretor, cujo nome é constantemente relacionado ao cinema transgressor e ao Gore, estilo que abusa do sangue e de conteúdos chocantes e detém uma certa natureza mórbida.

Apesar de ser reconhecido principalmente pelas obras violentas, Miike afirma que não gosta particularmente da violência e que se dedica aos mais diversos gêneros cinematográficos. Para quem conhece o diretor, isso pode parecer engraçado, mas não tão improvável, levando-se em conta a quantidade de filmes que ele produz. Miike é um diretor prolixo, um dos mais produtivos de todos os tempos. Desde sua estreia nas telas de cinema, em 1995, com Shinjuku Triad Society, vem fazendo uma média de quatro longas por ano. “Fazer mais, para mim, é crescer mais. Cada vez faço mais filmes e tenho mais ideias. Tenho liberdade total para expressar as minhas capacidades e estou muito satisfeito com aquilo que faço e com este mundo. Quero seguir este estilo de trabalho”, disse ele em entrevista coletiva  no Festival de Sitges, na Espanha, quando Gozu arrecadou o prêmio de Melhores Efeitos Visuais e o Prêmio Especial do Júri. Na mesma ocasião, o diretor recebeu o prêmio-homenagem Máquina do Tempo, destinado a figuras do mundo cinematográfico que, de um modo ou de outro, contribuíram historicamente para a evolução da linguagem do cinema.

Em cartaz na mostra organizada pelo CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e pelo Centro Cultural Banco do Brasil, o cult Gozu (imdb / Wikipedia) carrega a reputação de ser um dos filmes japoneses mais estranhos feitos até hoje e é uma obra exemplar para que se tenha ideia do que Miike pode fazer. Através de cenas delirantes, que variam da comédia ao terror, acompanhamos os estranhos acontecimentos que envolvem Minami, um ingênuo membro dos Yakuza (máfia japonesa), encarregado de livrar-se de um colega sênior, Ozaki, por quem tem uma especial afeição e que começa a dar sinais de loucura. O trabalho sujo deve ser feito em uma viagem a Nagoya, porém antes de chegarem ao destino o amigo misteriosamente some, e Minami tem que encontrá-lo, vivo ou morto. Durante à busca ao desaparecido, locais bizarros e pessoas estranhas cruzam o destino de Minami, que é imerso numa série de acontecimentos que desafiam qualquer explicação lógica. Falar mais do enredo seria entregar o ouro ao bandido, mas para ter uma idéia, em uma das cenas vemos
Ozaki nascendo de novo do seu próprio corpo; e outras tomadas contam a participação da figura-título do filme, Gozu, uma criatura com corpo humano e cabeça de vaca.

Quando procuraram Takashi Miike pela primeira vez, os produtores de Gozu tinham em mãos uma história de yakuza muito mais perto do convencional – mas, como o orçamento era tão baixo, deram a ele total liberdade para fazer o que bem entendesse. Na tentativa de surgir com algo mais espontâneo e diferente, Miike deu ao roteirista Sakichi Sato (que aparece no filme como um garçom usando um sutiã) apenas uma semana para escrever o roteiro, de modo que não tivesse tempo de refletir e repensar o seu texto.

Outra curiosidade interessante é que, durante as filmagens, apesar do roteiro, Miike não deu detalhes da história aos atores, passando a eles apenas o nome de seus personagens e suas profissões e, assim, deixando muita coisa por conta da improvisação de cada um. Muito desta liberdade criativa e das soluções narrativas do diretor vêm do fato de ele trabalhar essencialmente com filmes direto para o vídeo. “Quando eu faço um filme direto para o vídeo, tenho mais liberdade para criar, e nada me pára ou me força a fazer algo que eu não quero”, ele explica.

Com Gozu não foi diferente: o filme nunca foi pensado para atingir grandes estruturas, até que foi encaixado no Festival de Cannes e recebeu uma entusiasmada resposta do público, despertando a atenção de distribuidores e empresas independentes norte-americanas. Na sequência, a psicodelia de Gozu entrou na seleção de diversos festivais independentes e conquistou premiações, na Bélgica, na Suíça e na Espanha.
Andréa Azambuja

O diretor
Takashi Miike nasceu no dia 24 de agosto de 1960, na pequena cidade de Yao, no Japão. Seu principal interesse na adolescência eram motocicletas, e por algum tempo ele até pensou em seguir a carreira de piloto. Aos 18 anos, foi estudar na escola de cinema em Yokohama, fundada pelo renomado diretor Shohei Imamura, especialmente porque não eram exigidos exames de admissão. Como reconhece o diretor, ele era um estudante indisciplinado e quase não ia às aulas. Quando uma companhia local de TV foi procurar assistentes voluntários na escola, porém, foi o turista Miike que os professores indicaram. Ele passou quase uma década trabalhando na televisão desempenhando diversos papeis, inclusive o de ator, até se tornar diretor assistente de alguns cineastas, entre eles o seu mentor, Imamura. O surgimento do V- Cinema (Direto para Vídeo), no início dos anos 90, foi a deixa para Miike dirigir seus próprios filmes, já que novas companhias começaram a contratar jovens diretores para trabalhar com orçamentos baixos em alguns filmes de ação.

 O primeiro longa-metragem de Miike a estrear no cinema foi Shinjuku Triad Society (1995), e daí por diante ele alternou produções direto para o vídeo com realizações de alto orçamento para o cinema. Miike começou a conquistar fama internacional com Audition (1999) e a cada ano ganha mais seguidores no Ocidente. Diretor prolixo, já dirigiu mais de 60 filmes nos 15 anos de carreira como diretor, obras essas conhecidos principalmente pelas representações explícitas de sexo e violência, o que pode ser conferido em títulos como Visitor Q (2001), Ichi The Killer (2001) e na Dead or Alive Trilogy: Dead or Alive: Hanzaisha (1999), Dead or Alive 2: Tôbosha (2000) e Dead or Alive: Final (2002). 

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GOZU

Prêmios

  • Festival Internacional de Cinema Fantástico de Bruxelas 2004: Roteiro – Silver Raven e Sakichi Satô
  • Festival Internacional de Cinema Fantástico de Neuchâtel 2003: Melhor Filme da Ásia e Prêmio do Júri (Takashi Miike)
  • Festival de Sitges 2003: Melhores Efeitos Visuais e Prêmio Especial do Júri (Takashi Miike)

Elenco
Yûta Sone – Minami (as Hideki Sone)
Shô Aikawa – Ozaki
Kimika Yoshino –  Female Ozaki
Shôhei Hino – Nose
Keiko Tomita – Innkeeper
Harumi Sone – Innkeeper’s Brother
Renji Ishibashi – Boss

Equipe
Direção: Takashi Mii
Roteiro: Sakichi Soto
Produção: Harumi Sone, Kana Koido, Misako Saka, Shigeji Maeda e Akira Ishige
Edição: Yasushi Shimamura
Música: Koji Endo
Som: Hitoshi Tsurumaki

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ZONA LIVRE 2010 – MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA


No contra fluxo do ritmo de Carnaval que se instaura na cidade, o Rio recebe em fevereiro uma mostra de cinema inédita, composta por um panorama de longas-metragens estrangeiros com pouca entrada no Brasil, mas que por outro lado possuem intensa circulação na web. Essa é uma das sugestões para o circuito off samba deste verão: a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, que acontece entre os dias nove e 28 no CCBB Rio por iniciativa do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN).

Confira aqui mesmo no blog o endereço e telefones de contato, a grade de programação e o catálogo completo da mostra para download, impressão ou leitura.

A programação conta com uma maioria de filmes inéditos no Brasil. Ao todo, a mostra traz para o Rio 19 títulos que circularam em festivais mundo afora, mas que terminaram por criar sua reputação e ganhar destaque num circuito paralelo: o da Internet, em fóruns e comunidades de cinema. À relevância de algumas obras, soma-se a saudável transposição desses ‘arquivos’, vindos das redes de cinéfilos na Internet, em ‘filmes’ exibidos em 35mm e DVD, autorizados por seus diretores, na consagrada experiência coletiva da sala de cinema.

Acesse imagens dos filmes em nosso canal no Flickr e assista trailers completos, de todos os filmes da mostra, no canal do festival no You Tube. A seguir, uma síntese da programação:

Intenso fluxo de informações, downloads, copyrights, copylefts e quebras de códigos de zonas de exibição habitam o emaranhado conceitual desta mostra, cujo objetivo é propor uma reflexão sobre a democratização e as vias paralelas da informação. Ao mesmo tempo, a Zona Livre também aborda o inevitável e permanente processo de troca de telas a que a imagem é submetida hoje em dia, neste caso do computador para a sala de cinema do CCBB-RJ.

Dentro desta idéia, alguns diretores com filmes presentes na Zona Livre participarão de debates online com o público do CCBB, via Skype: de diferentes partes do mundo, eles estarão em tempo real na sala de cinema conversando com os espectadores sobre suas obras. Por outro lado, o diretor norte-americano Cory McAbee estará no Rio de Janeiro pessoalmente, “offline”, para um debate com público na semana final da mostra.

A mostra Zona Livre surgiu em Porto Alegre, em outubro passado, dentro da programação internacional da edição 2009 do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre. Na curadoria convidada pelos organizadores do festival para o projeto, dois jovens que representam a novíssima geração de produtores gaúchos plugados aos novos meios: Davi Pretto e Bruno Carboni, da Tokyo Filmes. A experiência bem-sucedida no sul, durante a sexta edição do CineEsquemaNovo, chega agora a outros centros com uma programação consistente para os cinéfilos de plantão em pleno fevereiro.

Todos os filmes da mostra receberão reportagens especiais aqui no blog. No catálogo, você confere mais informações sobre todos os títulos. Confira aqui a lista dos longas em exibição:

All About Lily Chou Chou, de Shunji Iwai (Japão)
>> inédito no Brasil

American Astronaut, de Cory McAbee (EUA)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Black Night, de Olivier Smolders (Bélgica)
>> inédito no Brasil

Daytime Drinking, de Young-Seok Noh (Coréia do Sul)
>> inédito no Brasil

Ex-Drummer, de Koen Mortier (Bélgica)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Glue, de Alexis dos Santos (Argentina / Reino Unido)
>> inédito no Rio de Janeiro

Good Dick, de Marianna Palka (EUA)
>> inédito no Brasil

Gozu, de Takashi Miike (Japão)
>> inédito no Rio

Hukkle, de György Pálfi (Hungria)

Hunger, de Steve McQueen (Reino Unido / Irlanda)
>> inédito no Rio e SP

Instrument, de Jem Cohen (EUA)
>> inédito no Rio

Man from Earth, de Richard Schenkman (EUA)

Moonlighting, de Jerzy Skolimowski (Reino Unido)
>> inédito no Rio

Nowhere, de Gregg Araki (EUA)

One night in one City, de Jan Balej (República Tcheca)

Sangre, de Amat Escalante (México)
>> inédito no Rio

Stingray Sam, de Cory McAbee (EUA)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Taxidermia, de György Pálfi (Hungria)
>> inédito no Rio

Trash Humpers, de Harmony Korine (EUA)
>> inédito no Brasil