ZONA LIVRE


TRASH HUMPERS, DE HARMONY KORINE
março 4, 2010, 7:00 pm
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EUA, 78min, 2009, cor, VHS (exibição em DVD)
>> inédito no Brasil

09/02, 19h, Sala 01 + Debate online com o diretor
21/02, 18h, Sala 01


“Após ter rodado um filme de U$$ 8 milhões (o que para seu universo é muito), Korine abriu mão de estruturas e orçamentos e voltou à verdadeira essência de filmar, buscando captar e vivenciar coerentemente a miserabilidade de seus desajustados personagens. O resultado é repulsivo, ultrajante e de difícil digestão, mas de uma estranha sensibilidade, que acaba por se tornar inusitadamente comovente” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

É com esse fôlego que começa nesta terça, dia 09, a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, que o Centro Cultural Banco do Brasil e o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) trazem ao Rio de Janeiro, de nove a 28 de fevereiro.

Trash Humpers, do aclamado diretor Harmony Korine, inaugura os trabalhos em sessão marcada para as 19h, seguida de debate online com o diretor norte-americano via Skype.

Harmony Korine dispensa apresentações. Com um currículo que inclui Gummo (1997), um dos filmes mais importantes dos anos 90, e o roteiro de Kids, de Larry Clark, o diretor, roteirista, escritor e fotógrafo conquistou o gosto não só de cineastas importantes (Lars Von Trier, Bernardo Bertolucci e Gus Van Sant, para citar alguns), como uma legião de fãs e seguidores por todo o mundo – isso apesar de suas temáticas e estilo pouco convencionais. Taxado de provocador e radical, um certo “enfant terrible”, Korine joga de acordo com suas próprias regras. Párias sociais, imagens de revirar o estômago, infâncias disfuncionais, desordens mentais e pobreza são temas comuns às suas narrativas, normalmente não-lineares e bastante experimentais, compostas por fragmentos de eventos altamente simbólicos ou metafóricos. Ele compara o seu modo de criação a um álbum de fotos pessoais: separadas, cada figura é estranha, fora de contexto, mas se compiladas em um volume e apresentadas juntas se tornam capazes de oferecer uma narrativa.

Trash Humpers é uma obra exemplar do estilo do cineasta: uma realização audaciosa e autêntica, na contramão da linguagem do cinema convencional. A concepção da obra, no entanto, partiu de situações singelas. Enquanto passeava à noite com seu cachorro em uma viela atrás de sua casa em Nashville, Tennessee, Korine encontrou um monte de latas de lixo reviradas e jogadas no chão. Aquele cenário, que parecia uma zona de guerra, iluminado pelos postes de luz, chamou sua atenção pela dramaticidade; tudo começou a sugerir formas humanas, abusadas e isoladas. Então se lembrou de quando era criança e costumava ver um grupo de velhos sujos perambulando pela rua, bebendo, dançando e urinando pelas janelas das casas alheias. O resultado? “Desenterrado da paisagem escondida do pesadelo americano, Trash Humpers acompanha um pequeno grupo de mascarados parasitando através das sombras e margens de um universo desconhecido. Cruelmente documentado pelos integrantes, seguimos as ações chocantes desses verdadeiros sociopatas como nunca visto antes. Habitando um mundo de sonhos partidos e além dos limites da moralidade, eles se chocam com uma América dividida. No limite de uma ode ao vandalismo, este é um novo tipo de horror, palpável e cru”, diz um dos textos oficiais do longa.

Os personagens de Trash Humpers não apenas protagonizam atos grotescos, como exibem uma total satisfação em fazê-lo, numa inusitada celebração à destruição. Entre tantas bizarrices (o nome sugere uma: hump = fazer sexo com alguém ou alguma coisa), eles dançam, cantam e repetem frases sem sentido, compondo uma improvável poesia saída do caos. Paradoxalmente, há quase um otimismo, uma doçura naqueles seres humanos vivendo no seu próprio e idealizado mundo. Korine arrisca dizer que muita gente pode até sentir inveja da liberdade que aquelas figuras experimentam, e completa (em uma ótima entrevista que você pode ler aqui): “Eu sinto de verdade um profundo amor e admiração por esses personagens. Não pelo que eles fazem, mas por como o fazem. É uma ode ao vandalismo e à criatividade da força destrutiva. Às vezes há uma real beleza em explodir coisas, em despedaçar e queimar. Pode ser tão esclarecedor como construir um objeto. Eu quis que esses personagens fossem quase uns artistas – artistas do mal”.

Cansado de toda a burocracia envolvida em Mister Lonely (2007), seu filme anterior e o mais caro de sua carreira até agora (foi produzido com US$ 8,2 milhões e contou com roteiro de seu irmão, Avi), Korine quis trabalhar o mais rápido quanto fosse possível. Dessa forma, Trash Humpers foi filmado em cerca de duas semanas, com orçamento beirando o zero e partindo apenas de algumas anotações e testes com fotografias. A rotina de gravação não envolveu mais do que o atrevimento da equipe: o grupo de falsos velhos – incluindo um incógnito Korine – apenas saiu pelas ruas, dormindo embaixo de pontes e fazendo todas as demências nas quais podiam pensar, enquanto documentavam uns aos outros. “Foi bastante intenso, porque não parava nunca, era constante”, descreve o diretor, após esclarecer que não se preocupou com as cenas, com o som ou as cores durante o processo – mas sim em produzir algo real, “orgânico”, que fizesse sentido para ele mesmo.

O longa foi filmado em VHS, com câmera na mão e sem roteiro, combinando com a premissa peculiar e a espontaneidade das representações. A ideia era que o filme parecesse uma velha e maluca fita de vídeo-cassete que cai na mão de alguém por motivos inquestionáveis e surreais, como que encontrada por acaso enterrada em algum buraco, ou em um sótão abarrotado. “Eu cresci na era do VHS. Lembro de ganhar minha primeira câmera e reaproveitar a fita várias vezes. Havia algo de estranho em ficar gravando por cima e por cima, e pequenas imagens e momentos continuarem voltando por um segundo ou dois quando você assistia. Havia uma estranha beleza no analógico. Você quase tinha que forçar os olhos para ver as coisas através das imagens granuladas e borradas. Há algo de sinistro nisso tudo”, diz Korine, com certeza bem sucedido na intenção. Em certo ponto das filmagens ele pensou, inclusive, em fazer um monte de cópias e deixá-las nas calçadas em frente a restaurantes, delegacias de polícia e em outros lugares comuns para acompanhar o que aconteceria. Curiosamente, a aura “suja” e doméstica do VHS, reforçada com falhas na imagem e informações em playback acrescentadas na edição, rendeu ao filme o prêmio máximo do proeminente Festival Internacional de Documentários de Copenhagen de 2009, mesmo se tratando de uma ficção – e também estará na edição 2010 do festival South By SouthWest.

Pode-se dizer que o contraponto de Trash Humpers – o poético versus o grotesco – se estende a toda a carreira de Harmony Korine. Ou se ama, ou se odeia. Na opinião do artista, no entanto, ele não faz nada além de capturar a cara dos Estados Unidos e os seus moradores, seus estacionamentos vazios e seus postes de luz iluminando os sofás abandonados no meio da rua. Para ele a arte é a voz de um homem, é uma ideia, um ponto de vista; e quem não enxergar da mesma forma, que vire as costas. Sejam filmados em VHS ou DVD, sejam lançados oficialmente ou apenas caiam na rede, sejam vistos na telona do cinema ou na telinha do computador, os filmes de Harmony Korine nunca passam despercebidos.

Andréa Azambuja


Um pouco da vida e da carreira do diretor
:

Harmony Korine nasceu em Bolinas, Califórnia, em 1943. Ele cresceu em Nashville como um adolescente solitário, até se mudar para a casa da avó em Nova York, onde peregrinava pelos cinemas cult de Manhattan em busca de clássicos da sétima arte (entre as preferências estavam Cassavetes, Herzog, Godard e Alan Clarke).

Sua carreira cinematográfica começou aos 19 anos, embalada por um skate no Washington Square Park. Entre uma e outra manobra arriscada com os amigos, Korine avistou o (clássico) fotógrafo Larry Clark e entregou a ele um roteiro que tinha em seu bolso, sobre um pai que levava o filho para ver uma prostituta. Impressionado, Clark pediu que ele reescrevesse o script, ou que fizesse um novo, contando um pouco de sua rotina. Três semanas depois estava pronto o roteiro de Kids, uma amostra de 24h da vida cheia de sexo e drogas de um grupo de adolescentes de Manhattan. Estrelado por Leo Fitzpatrick, Chloe Sevigny e Rosário Dawson (as últimas nos seus primeiros papeis no cinema), Kids foi definido pela crítica norte-americana como “uma brilhante chamada para a América acordar”, ao mesmo tempo em que foi taxado de representar uma descarada promoção da exploração juvenil. Mesmo controversa, a obra estabeleceu Korine como uma forte e potencial figura do cinema underground emergente nos EUA, além de botá-lo em contato com o produtor Cary Woods, que viria a patrocinar sua estreia na direção: Gummo, produzido com US$ 1 milhão.

Gummo foi lançado em 1997 e mostra a vida de dois amigos na remota cidade de Xênia, Ohio, devastada por um tornado na década de 70. Pela narrativa fragmentada (foi montado com fotos Polaroid, filmes em Super 8 e 35mm), de trilha sonora eclética (junta Madonna a death metal e Roy Orbison) e povoada por atores iniciantes, Korine foi declarado “gênio” por muitos críticos consagrados em todo o mundo. Fora isso, recebeu cartas pessoais dos “fãs” Bernardo Bertolucci e Werner Herzog (hoje seu colaborador), que contou ao New York Times: “Quando eu vi um pedaço de bacon frito grudado na parede do banheiro em Gummo, aquilo me tirou da cadeira. Korine é uma voz muito clara de uma geração de cineastas que está tomando uma nova posição. Não vai dominar o mundo, mas e daí?”.

E esse foi só o começo. Desde então, Harmony Korine trabalhou em diversos projetos, que incluem The Diary of Anne Frank (Part II) e Fight Harm (pelo qual quebrou diversas costelas e um dedo), foi convidado a participar do Dogma 95 – movimento pelo qual dirigiu Julian Donkey Boy -, fez o roteiro de Ken Park e assinou Mister Lonely. Isso sem contar as investidas fora do cinema: dirigiu videoclipes para bandas como Sonic Youth e Cat Power, escreveu uma música para Bjork, lançou cd e publicou livros de fotografias e textos, entre outras façanhas das quais você pode ler mais aqui.

Harmony Korine vem se afirmando como um dos mais controversos e independentes cineastas da contemporaneidade. Suas realizações têm, acima de tudo, personalidade, e é disso que o cinema precisa. Com boas ideias e iniciativa, o barco navega por conta própria. Prova disso é Trash Humpers, filme low budget que abre com categoria a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema. Popular apenas em alguns festivais no exterior e nas telas de raros computadores, ele é emblemático do motivo desse festival: proporcionar uma reflexão sobre as vias paralelas da informação e embalar com inovação o circuito off samba desse verão.

Curiosidades:

O pai de Korine, Sol, produzia documentários nos anos 70 e ensinou o filho a manejar sua primeira câmera.

Ele estudou Inglês na Tisch School of the Arts, na New York University, por um semestre, mas largou a faculdade para se tornar um dançarino profissional de sapateado.

Mesmo depois de ter lançado Gummo, dançou sapateado na rua em troca de trocados.

Passou anos cortando grama pelo dinheiro.

Mudou seu nome por um breve período para Laird Henn. A troca não vingou, mas está documentada em uma música da banda Sun City Girls que contém uma gravação deixada por ele na secretária eletrônica de um dos integrantes apresentando-se como Laird Henn.

Tem uma filha com a esposa Rachel Korine, Lefty Bell Korine.

Em 1999, revelou para a revista Dazed & Confused os seus dez filmes preferidos, em uma lista liderada por Pixote: A Lei do Mais Fraco, do argentino residente no Brasil Hector Babenco. A lista segue assim:

2- Badlands e
3- Days of Heaven, de Terrence Malick
4- Fat City, de John Huston
5- Stroszeck, de Werner Herzog
6- The Killing of a Chinese Bookie e
7- A Woman Under the Influence, de Jonh Cassavetes
8- McCabe and Mrs. Miller, de Robert Altman
9 – Out of the Blue, de Dennis Hopper
8- Hail Mary, de Jean-Luc Godard

Antes de Mister Lonely, Korine escreveu sobre um porco chamado Trotsky, em uma história que se passaria durante uma guerra racial na Flórida. No filme, um garoto iria selar o porco e botar adesivos em suas patas, para poder escalar paredes e jogar bombas molotov do alto. Korine declarou que essa seria sua obra de arte, mas o roteiro foi queimado e nunca pôde ser realizado, apesar dos esforços do criador: ele gastou mais de U$$ 11.000 para tentar recuperá-lo de seu velho computador, resgatando, porém, apenas uma frase do texto.

Antes da estreia oficial de Trash Humpers, no Festival de Toronto de 2009, Korine avisou a audiência que se alguém tinha a tendência de sair no meio de filmes, que fizesse aquilo naquele momento.

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Trash Humpers

Elenco:

Rachel Korine
Brian Kotzue
Travis Nicholson
Harmony Korine
Chris Gantry
Kevin Gutherie
Paige Spain
Dave Cloud
Chris Crofton
Charles Ezell

Equipe Técnica:

Direção: Harmony Korine
Produção Executiva: Agnes B. e Charles- Marie Anthonios
Produção: Amina Dasmal e Robin Fox
Edição: Leo Scott e Michael Carter
Som: Alex Altman
Pós-Produção: Ground Zero
Pós-som: Digital Audio Post



VÍDEO – DEBATE COM HARMONY KORINE NA ZONA LIVRE
fevereiro 19, 2010, 5:24 am
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No último dia 09, a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema começou com o pé direito o circuito de filmes estrangeiros que está trazendo ao Brasil. A programação exibiu na tela de cinema do CCBB do Rio a última realização de um controverso e conhecido cineasta: Trash Humpers, de Harmony Korine.

Após a sessão de cinema, Korine bateu um papo com os curadores do festival e com público através do Skype, em um momento de inusitada intimidade, falando direto de sua casa nos EUA acompanhado da esposa e do filho. Foi possível perceber que Korine transparece em seus filmes muito de sua personalidade, irreverente, descompromissado, que diz o que pensa, o que dá às suas produções um caráter muito particular e livre de qualquer amarra moral.  Abaixo, um trechinho do debate com o relaxado Korine, para ter uma ideia:

A Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema é uma realização do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e do Centro Culturl Banco do Brasil. O festival começou no dia 09 de fevereiro e se estende até o dia 28, no CCBB  do Rio de Janeiro, com o que há de melhor no cenário de filmes de renome na internet, mas que raramente têm a chance de chegar às telas de cinema.



“Trash Humpers” abre a Zona Livre e a série de debates: via Skype, Harmony Korine fala de cinema na tela do CCBB
fevereiro 10, 2010, 5:30 pm
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Começou ontem, com o pé direito e online com os Estados Unidos, a versão carioca da Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, nascida em Porto Alegre no CineEsquemaNovo 2009 e que acontece ao longo de todo este mês de fevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil da capital carioca.

Trash Humpers, última produção do aclamado e controverso Harmony Korine, marcou o pontapé inicial da programação. A projeção foi seguida por um debate online via Skype com o próprio Korine, diretamente de sua casa nos EUA, como você pode ver nas fotos deste post:

Como era de se esperar, Trash Humpers não passou ileso junto ao público que compareceu ao CCBB ontem (09) à noite para a sessão de abertura da mostra. Certamente, ninguém ficou apático frente à violência e à poesia do longa-metragem, gravado em Nashville, Tennessee, que mostra os comportamentos grotescos e polêmicos de um grupo de mascarados em atos de vandalismo gratuito. Pode-se dizer que o filme, montado com situações repulsivas, mas, ao mesmo tempo, de inusitadas doçura e poesia, refletiu-se perfeitamente no público, provocando ao mesmo tempo o desconforto e o fascínio por ele.

“Um filme desses sempre é difícil. Claro que tem gente que desiste, mas quem se comunicou com a obra não teve como ficar indiferente. Na realidade, é um filme que não deixa ninguém indiferente: ou você entra no espírito e se deixa levar, ou vai recebê-lo de uma outra forma, talvez não tão agradável. Isso já é bem esperado pela gente, muitos dos filmes da mostra são assim. Trash Humpers, especialmente, é um filme de muita personalidade. Eu sou um entusiasta de Korine, então sou suspeito para falar”, comentou Davi Pretto, curador da mostra ao lado de Bruno Carboni. Juntos, eles fizeram o meio de campo do bate-papo online do cineasta com os espectadores – que, durante aproximadamente 40 minutos, puderam conhecer um pouco mais sobre a vida do diretor.

Harmony Korine entrou via Skype direto de sua casa em Nova York, ao lado do filho e da esposa, com a naturalidade de quem faz e diz o que quer. Um dos pontos ressaltados pelo cineasta foi que seus projetos, acima de tudo, são desenvolvidos com a intenção da própria satisfação. Ele tem uma ideia, quer comunicá-la, vai lá e executa, sem pensar no resultado e se o filme será bem aceito pelo público ou pela crítica. Essa autonomia, explicou ele, não significa que não esteja de portas abertas para projetos maiores, desde que possa estar mais preocupado com o ser, do que em como vai ser.

Korine contou da concepção da história de Trash Humpers, desenvolvida a partir da mistura de uma imagem visual do tempo presente com uma lembrança do passado. Enquanto passeava à noite com seu cachorro em uma viela atrás de sua casa em Nashville, Korine encontrou um monte de latas de lixo reviradas e jogadas no chão. Aquele cenário, que parecia uma zona de guerra, iluminado pelos postes de luz, chamou sua atenção pela dramaticidade. Então lembrou de quando era criança e costumava ver um grupo de velhos sujos perambulando pela rua, bebendo, dançando e urinando pelas janelas das casas alheias, e quis fazer um filme.

Trash Humpers foi realizado com orçamento mínimo, durante cerca de duas semanas. Sua distribuição foi feita de forma independente, aparecendo em diversos festivais de cinema no exterior. Assim como alguns dos outros trabalhos de Korine, o filme conquistou um especial destaque na internet, suscitando um dos objetivos da mostra: proporcionar a reflexão sobre as vias paralelas da informação.

Quanto a este tema, Korine afirmou que “as pessoas devem fazer o que estiver ao seu alcance para ter acesso à informação”. Sendo assim, se alguém quiser exibir seus filmes em uma sala grande, para uma grande plateia, claro que vai ser ótimo: ele prefere que os filmes aconteçam na experiência do cinema. Porém, se este não for o caso, e a única opção for baixar da internet, que seja assim: “o mais importante é que as produções sejam vistas, não interessa de que forma”.

O clima do bate-papo na sala de cinema do CCBB foi de intimidade, com muito bom humor e sarcasmo por parte de Korine – que, entre risadas e piadas, filmava a filha Lefty Bell Korine, e a esposa, Rachel Korine, para a plateia ver. A descontração do momento deu uma boa ideia de como devem ter sido os sets de filmagem de Trash Humpers, cujo elenco foi formado pelo diretor, Rachel e mais alguns amigos. As cenas do longa não foram ensaiadas ou preparadas: o grupo só saiu batendo nas casas de pessoas, entrando e fazendo o que bem entendiam pelas ruas de Nashville, dando à produção uma aura de documentário na contramão do cinema convencional. Conforme Korine, nem se trata exatamente de um filme, mas de um retrato de uma realidade. E da mesma forma foi a estreia da Zona Livre: um retrato “real” de Harmony Korine e de sua personalidade, muito à vontade em satisfazer a própria honestidade.
Andréa Azambuja



ZONA LIVRE 2010 – MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA


No contra fluxo do ritmo de Carnaval que se instaura na cidade, o Rio recebe em fevereiro uma mostra de cinema inédita, composta por um panorama de longas-metragens estrangeiros com pouca entrada no Brasil, mas que por outro lado possuem intensa circulação na web. Essa é uma das sugestões para o circuito off samba deste verão: a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, que acontece entre os dias nove e 28 no CCBB Rio por iniciativa do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN).

Confira aqui mesmo no blog o endereço e telefones de contato, a grade de programação e o catálogo completo da mostra para download, impressão ou leitura.

A programação conta com uma maioria de filmes inéditos no Brasil. Ao todo, a mostra traz para o Rio 19 títulos que circularam em festivais mundo afora, mas que terminaram por criar sua reputação e ganhar destaque num circuito paralelo: o da Internet, em fóruns e comunidades de cinema. À relevância de algumas obras, soma-se a saudável transposição desses ‘arquivos’, vindos das redes de cinéfilos na Internet, em ‘filmes’ exibidos em 35mm e DVD, autorizados por seus diretores, na consagrada experiência coletiva da sala de cinema.

Acesse imagens dos filmes em nosso canal no Flickr e assista trailers completos, de todos os filmes da mostra, no canal do festival no You Tube. A seguir, uma síntese da programação:

Intenso fluxo de informações, downloads, copyrights, copylefts e quebras de códigos de zonas de exibição habitam o emaranhado conceitual desta mostra, cujo objetivo é propor uma reflexão sobre a democratização e as vias paralelas da informação. Ao mesmo tempo, a Zona Livre também aborda o inevitável e permanente processo de troca de telas a que a imagem é submetida hoje em dia, neste caso do computador para a sala de cinema do CCBB-RJ.

Dentro desta idéia, alguns diretores com filmes presentes na Zona Livre participarão de debates online com o público do CCBB, via Skype: de diferentes partes do mundo, eles estarão em tempo real na sala de cinema conversando com os espectadores sobre suas obras. Por outro lado, o diretor norte-americano Cory McAbee estará no Rio de Janeiro pessoalmente, “offline”, para um debate com público na semana final da mostra.

A mostra Zona Livre surgiu em Porto Alegre, em outubro passado, dentro da programação internacional da edição 2009 do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre. Na curadoria convidada pelos organizadores do festival para o projeto, dois jovens que representam a novíssima geração de produtores gaúchos plugados aos novos meios: Davi Pretto e Bruno Carboni, da Tokyo Filmes. A experiência bem-sucedida no sul, durante a sexta edição do CineEsquemaNovo, chega agora a outros centros com uma programação consistente para os cinéfilos de plantão em pleno fevereiro.

Todos os filmes da mostra receberão reportagens especiais aqui no blog. No catálogo, você confere mais informações sobre todos os títulos. Confira aqui a lista dos longas em exibição:

All About Lily Chou Chou, de Shunji Iwai (Japão)
>> inédito no Brasil

American Astronaut, de Cory McAbee (EUA)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Black Night, de Olivier Smolders (Bélgica)
>> inédito no Brasil

Daytime Drinking, de Young-Seok Noh (Coréia do Sul)
>> inédito no Brasil

Ex-Drummer, de Koen Mortier (Bélgica)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Glue, de Alexis dos Santos (Argentina / Reino Unido)
>> inédito no Rio de Janeiro

Good Dick, de Marianna Palka (EUA)
>> inédito no Brasil

Gozu, de Takashi Miike (Japão)
>> inédito no Rio

Hukkle, de György Pálfi (Hungria)

Hunger, de Steve McQueen (Reino Unido / Irlanda)
>> inédito no Rio e SP

Instrument, de Jem Cohen (EUA)
>> inédito no Rio

Man from Earth, de Richard Schenkman (EUA)

Moonlighting, de Jerzy Skolimowski (Reino Unido)
>> inédito no Rio

Nowhere, de Gregg Araki (EUA)

One night in one City, de Jan Balej (República Tcheca)

Sangre, de Amat Escalante (México)
>> inédito no Rio

Stingray Sam, de Cory McAbee (EUA)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Taxidermia, de György Pálfi (Hungria)
>> inédito no Rio

Trash Humpers, de Harmony Korine (EUA)
>> inédito no Brasil




HARMONY KORINE NOS DEBATES DA ZONA LIVRE: TERÇA, DIA 09

Debates online e offline, com alguns diretores selecionados, acontecem durante as três semanas da Zona Livre no CCBB do Rio de Janeiro.

Logo na abertura, dia 09, Harmony Korine, conversando com o público via Skype dentro da sala de cinema sobre Trash Humpers, inédito no Brasil e exibido no mesmo dia.

Marianna Palka, Richard Schenkman, Cory McAbee e o debate geral da mostra também estão na programação: