ZONA LIVRE


ALL ABOUT LILY CHOU CHOU, DE SHUNJI IWAI
fevereiro 26, 2010, 12:10 am
Filed under: Filmes em exibição, Zona Livre | Tags: , ,

140min, 2001, cor, 35mm
>> inédito no Brasil

26/02, 20h, Sala 01
28/02, 18h, Sala 01

“Aparentemente, o longa japonês dirigido por Shunji Iwai poderia ser só mais um trabalho em meio a tantos outros que a Ásia vem produzindo com destreza nos últimos tempos. Mas não: tanto pela história suficientemente inédita aos nossos olhos quanto pela fotografia precisa, que sabe como não ser exibicionista ou ‘virtuosa’ (sem ser menos surpreendente e tocante nos momentos convenientes), e sem contar a bela trilha sonora, o filme de Iwai soma todos estes fatores de forma fascinante para cativar e potencializar a mesma atmosfera complexa, sensível e envolvente que seus protagonistas habitam ao longo das mais de duas horas de duração” – Davi Pretto e Bruno Carboni, curadores da Zona Livre

 A vida de um adolescente colegial não é nada fácil quando o ato de ir à escola significa estar sujeito à constante humilhação e à violência, e quando as únicas mensagens de conforto encontram-se nas notas musicais de canções melancólicas ou na tela de um computador. É esta realidade que vivem as personagens de All About Lily Chou Chou (2001), filme do diretor japonês Shunji Iwai, que o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN) e o Centro Cultural do Brasil trazem agora ao Rio de Janeiro, na Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema. A primeira exibição do longa-metragem está marcada para o dia 26, às 20h, na Sala 01 do CCBB, e a segunda para 18h do dia 28, na mesma sala.

All About Lily Chou Chou é ambientado em um Japão hostil, que sufoca pela perversa solidão que a cultura cyber individualista pode representar. Contrastando com a brutalidade e com a frieza que permeiam a história, Shunji faz uso de uma fotografia de beleza impecável para narrar os acontecimentos que envolvem dois amigos, que acabam tendo o elo de amizade substituído por uma relação de violência e submissão. Com narrativa não-linear, que vai e volta no tempo, o filme apresenta Yuichi Hasumi (Hayato Ichihara), menino tímido, ridicularizado e humilhado constantemente na escola. Sua vida é um inferno, e a única válvula de escape que encontra é a admiração pela cantora Lily Chou-Chou, cujas músicas, segundo ele acredita, possuem um “éter” que encanta e simboliza tudo que é belo. Sob o nick de “Philia”, Yuchi mantém um grupo de discussão em homenagem à cantora na internet e vive uma existência paralela e solitária cercado pelas paredes de seu quarto, até que encontra “Blue Cat”, com quem passa a trocar angústias e confissões.

Um ano antes, então aos treze anos, quando ainda não conhecia a música de Lily, Yuichi vive ótimos momentos do final da sua infância ao lado do novo amigo Shusuke Hoshimo (Shugo Oshinari), excelente aluno que também é ‘torturado’ por outros garotos.  Em uma viagem de férias, porém, Hoshimo sofre um acidente que não só quase o mata, como muda drasticamente seu comportamento. Logo ele derrota o principal agressor da escola e torna-se o líder manipulador e perigoso de uma gangue. Passa, então, a abusar psicologicamente do ex-amigo, obrigando-o a monitorar os passos de Shiori Tsuda (Yu Aoi), mais uma de suas vítimas, que é forçada por ele a aceitar encontros com homens mais velhos em troca de dinheiro. Completando a rede de adolescentes que conduz o enredo, Yoko Kuno (Ayumi Ito) é uma impressionante pianista que faz sucesso entre os meninos, mas nem por isso deixa de ser alvo de perseguições.

A fragmentação da linguagem adotada pelo diretor Shunji Iwai acentua os dilemas vivenciados pelos personagens da trama. Em um contexto sufocante de violência e solidão, é apenas no mundo virtual, por detrás de nomes falsos, que os jovens conseguem confessar o que os aflige e encontrar algo mais para o presente do que o medo e a insegurança. As postagens dos adolescentes no site LilyPhilia tomam conta da tela no meio o filme, deixando para o espectador a tarefa de descobrir quem está escrevendo sob qual nome, servindo como um adicional para que suas verdadeiras intimidades sejam desnudadas. As frases saídas da Internet não constituem, no entanto, apenas uma técnica narrativa: elas foram a peça-chave para que o projeto saísse do papel e se transformasse neste hipnótico e artístico filme autoral.

Logo que resolveu tocar o projeto, Iwai chamou o compositor e antigo colaborador Takeshi Kobayashi (que assina a trilha sonora da produção) para trabalhar na composição da fictícia cantora Lily e de suas músicas. Ele mergulhou prontamente na tarefa, inspirando-se em pessoas reais para alcançar a essência verdadeira da personagem. Após alguns meses, Lily estava criada, e a história entrava em seus capítulos finais; mas havia algo faltando – “o centro, a identidade do filme, alguma coisa assim”, afirma o diretor. Contrariando os colegas, Iwai começou a reescrever o roteiro, e o início das filmagens foi adiado indefinidamente. Foi ouvindo uma das músicas compostas para Lily que o diretor teve a ideia: “Não precisa ser um filme: pode haver um meio mais adequado para ele”. O projeto, então, se converteu em uma novela interativa para a internet, e que teria as impressões dos usuários integradas ao texto. Iwai construiu, então, um website para a trama, onde passou a postar as primeiras linhas do que viria a se tornar All About Lily Chou-Chou.

Para a sua surpresa, a novela logo virou febre. Sob variados nicknames, Iwai garantiu a evolução da narrativa, respondendo aos posts deixados pelos usuários. Este site logo recebeu as músicas de Lily Chou Chou, assim como foi criada a página oficial da cantora, administrada por uma pessoa chamada Sadie. Tudo, claro, como parte da ficção. Em um certo momento, entretanto, acontece um assassinato no Shibuya Concert Hall, e o website LilyPhilia misteriosamente sai do ar – gerando uma fervorosa manifestação dos internautas, que não sabiam mais o que era verdade ou ficção.

A história começara a tomar forma, e era hora do criador continuar a trama sozinho. Iwai, então, tirou a novela do ar e começou a postar os novos capítulos em uma página pessoal, os quais posteriormente foram publicados em uma revista durante três meses. Neste processo, ele encontrou o que estava faltando no plano inicial e passou a repensá-lo para o cinema. “Escrever uma história com pessoas sem rosto foi a experiência mais excitante que já tive”, declara o diretor, que atualmente trabalha na animação Baton, em parceria com o diretor Ryuhei Kitamura (de Versus e Azumi).

All About Lily Chou-Chou também foi inicialmente concebido para representar a primeira realização de um novo empreendimento chamado Y2K Project. Em 1997, Iwai encontrou-se com o premiado diretor Edward Yang, em Taiwan, e o dois concordaram em trabalhar em conjunto em uma série de filmes. O Y2K iria incluir, ainda, o cineasta de Hong Kong Stanley Kwan e tinha como objetivo colocar abaixo as fronteiras entre as diferentes culturas da Ásia, tendo como fio condutor as mudanças asiáticas no século 21.

Parece que as pretensões do diretor superaram suas expectativas. All About Lily Chou-Chou chamou atenção de diversos festivais de cinema independente, arrecadando prêmios e conquistando uma legião de fãs em fóruns e comunidades de cinema na Internet. O filme, agora, vai adiante e ultrapassa as barreiras entre continentes, chegando à tela grande do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro e representando com propriedade as principais intenções da Zona Livre: proporcionar a reflexão a respeito das vias paralelas de informação e promover a democratização da informação.
Andréa Azambuja

Curiosidades

  • As filmagens de All About Lily Chou-Chou foram feitas com câmera digital 24p; na época, Shunji Iwai foi o primeiro diretor japonês a empregar esta tecnologia, ainda uma recente novidade.
  • Quentin Tarantino usou a música Wounds That Heal (Kaifuku Suru Kizu), da trilha Sonora de All About Lily Chou-Chou, em Kill Bill, na cena em que a noiva vê a coleção de espadas de Hattori Hanzo.
  • A persongem de Lily Chou-Chou foi inspirada na cantora e atriz de Hong Kong Faye Wong. No filme, as canções são interpretadas pela artista japonesa Salyu.
  • Ayumi, que interpreta a personagem Yoko Kuno, ficou obcecada pela obra Arabesque N° 1, de Debussy, e passou semanas treinando piano para que pudesse filmar todas as cenas sem precisar de dublê.
  • Já Debussy escreveu a famosa Children’s Corner Suite (1909) para sua filha, a quem deu o apelido de Chou-Chou.
  • A versão original de All About Lily Cho-Chou tinha 157 minutos, em vez de 146, mas foi queimada e não existe mais. Os onze minutos perdidos eram compostos por intensas tomadas da cena de estupro, por uma seqüência de Yuichi na praia (similar a de Hoshino se afogando) e por uma cena estendida do funeral.

Sobre o diretor

Nascido em 1963 na cidade de Sendai, Japão, Shunji Iwai começou sua carreira dirigindo vídeos e programas musicais de televisão a cabo. Nos anos seguintes, ele escreveu e dirigiu diversos dramas para a televisão, videoclipes e comerciais publicitários, alcançando reputação por seu característico estilo visual. Iwai é considerado um dos artistas japoneses contemporâneos realmente originais; cada uma de suas realizações revela que o diretor possui uma particular excelência técnica e uma delicada emoção, além de ser um impactante contador de histórias. 

Vídeos e fotos
Entrevista sobre New York I Love You
Baton

ALL ABOUT LILY CHOU CHOU

Prêmios

Créditos
Diretor – Shunji Iwai
Produção – Naoki Hashimoto
Produtor executivo – Koko Maeda
Produtora – Rockwell Eyes Inc.
Roteiro – Shunji Iwai
Cinematografia – Noboru Shinoda
Direção de Arte – Noboru Ishida
Música – Takeshi Kobayashi
Direção de Som – Osamu Takizawa
Figurino – Hiromi Shintani

Elenco
Yuichi Hasumi – Hayato Ichihara
Shusuke Hoshino – Shugo Oshinari
Yoko Kuno – Ayumi Ito
Shiori Tsuda – Yu Aoi
Tabito Takao – Takao Ôsawa
Shimabukuro – Miwako Ichikawa
Izumi Hoshiro – Iumi Inamori
Sumika Kanzaki – Kazusa Matsuda
Terawaki Shioske – Ryo Katsuji

Distribuidora
Fortíssimo Films

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ZONA LIVRE 2010 – MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA


No contra fluxo do ritmo de Carnaval que se instaura na cidade, o Rio recebe em fevereiro uma mostra de cinema inédita, composta por um panorama de longas-metragens estrangeiros com pouca entrada no Brasil, mas que por outro lado possuem intensa circulação na web. Essa é uma das sugestões para o circuito off samba deste verão: a Zona Livre – Mostra Internacional de Cinema, que acontece entre os dias nove e 28 no CCBB Rio por iniciativa do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN).

Confira aqui mesmo no blog o endereço e telefones de contato, a grade de programação e o catálogo completo da mostra para download, impressão ou leitura.

A programação conta com uma maioria de filmes inéditos no Brasil. Ao todo, a mostra traz para o Rio 19 títulos que circularam em festivais mundo afora, mas que terminaram por criar sua reputação e ganhar destaque num circuito paralelo: o da Internet, em fóruns e comunidades de cinema. À relevância de algumas obras, soma-se a saudável transposição desses ‘arquivos’, vindos das redes de cinéfilos na Internet, em ‘filmes’ exibidos em 35mm e DVD, autorizados por seus diretores, na consagrada experiência coletiva da sala de cinema.

Acesse imagens dos filmes em nosso canal no Flickr e assista trailers completos, de todos os filmes da mostra, no canal do festival no You Tube. A seguir, uma síntese da programação:

Intenso fluxo de informações, downloads, copyrights, copylefts e quebras de códigos de zonas de exibição habitam o emaranhado conceitual desta mostra, cujo objetivo é propor uma reflexão sobre a democratização e as vias paralelas da informação. Ao mesmo tempo, a Zona Livre também aborda o inevitável e permanente processo de troca de telas a que a imagem é submetida hoje em dia, neste caso do computador para a sala de cinema do CCBB-RJ.

Dentro desta idéia, alguns diretores com filmes presentes na Zona Livre participarão de debates online com o público do CCBB, via Skype: de diferentes partes do mundo, eles estarão em tempo real na sala de cinema conversando com os espectadores sobre suas obras. Por outro lado, o diretor norte-americano Cory McAbee estará no Rio de Janeiro pessoalmente, “offline”, para um debate com público na semana final da mostra.

A mostra Zona Livre surgiu em Porto Alegre, em outubro passado, dentro da programação internacional da edição 2009 do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre. Na curadoria convidada pelos organizadores do festival para o projeto, dois jovens que representam a novíssima geração de produtores gaúchos plugados aos novos meios: Davi Pretto e Bruno Carboni, da Tokyo Filmes. A experiência bem-sucedida no sul, durante a sexta edição do CineEsquemaNovo, chega agora a outros centros com uma programação consistente para os cinéfilos de plantão em pleno fevereiro.

Todos os filmes da mostra receberão reportagens especiais aqui no blog. No catálogo, você confere mais informações sobre todos os títulos. Confira aqui a lista dos longas em exibição:

All About Lily Chou Chou, de Shunji Iwai (Japão)
>> inédito no Brasil

American Astronaut, de Cory McAbee (EUA)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Black Night, de Olivier Smolders (Bélgica)
>> inédito no Brasil

Daytime Drinking, de Young-Seok Noh (Coréia do Sul)
>> inédito no Brasil

Ex-Drummer, de Koen Mortier (Bélgica)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Glue, de Alexis dos Santos (Argentina / Reino Unido)
>> inédito no Rio de Janeiro

Good Dick, de Marianna Palka (EUA)
>> inédito no Brasil

Gozu, de Takashi Miike (Japão)
>> inédito no Rio

Hukkle, de György Pálfi (Hungria)

Hunger, de Steve McQueen (Reino Unido / Irlanda)
>> inédito no Rio e SP

Instrument, de Jem Cohen (EUA)
>> inédito no Rio

Man from Earth, de Richard Schenkman (EUA)

Moonlighting, de Jerzy Skolimowski (Reino Unido)
>> inédito no Rio

Nowhere, de Gregg Araki (EUA)

One night in one City, de Jan Balej (República Tcheca)

Sangre, de Amat Escalante (México)
>> inédito no Rio

Stingray Sam, de Cory McAbee (EUA)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009

Taxidermia, de György Pálfi (Hungria)
>> inédito no Rio

Trash Humpers, de Harmony Korine (EUA)
>> inédito no Brasil